Mattarella força governo de iniciativa presidencial

Movimento 5 Estrelas e Liga perdem braço-de-ferro com o chefe do Estado. Presidente avisara que não aceitaria um ministro da Economia que fosse contra o euro e foi coerente

O presidente de Itália rejeitou a nomeação do eurocético Paolo Savona para o Ministério da Economia e escolheu o economista Carlo Cottarelli para chefiar um governo de iniciativa presidencial. Como não se espera que obtenha aprovação parlamentar, até à realização de novas eleições a Itália fica com um governo de gestão.

"Renunciei ao mandato para formar o governo de mudança. Agradeço ao presidente da República por me ter mandatado e às formações que indicaram o meu nome. Posso assegurar que dediquei o máximo das minhas forças e atenção a esta tarefa. Obrigado a todos." Com estas palavras, no final da audiência com o presidente Sergio Mattarella, Giuseppe Conte poderá ter terminado a carreira política mais meteórica de Itália. O até agora desconhecido advogado e professor universitário não obteve o apoio do chefe do Estado na nomeação de Paolo Savona para o cargo de ministro da Economia e por isso decidiu que não tinha condições para liderar o governo.

No centro da polémica está o economista de 82 anos, crítico do euro - que considera "um erro histórico" - e que faz campanha pela saída de Itália da moeda única. Num livro a lançar por estes dias, Savona escreve que o euro é "uma cela alemã" e acusa a Alemanha de "não ter mudado a visão do seu papel na Europa depois do fim do nazismo, embora já não a imponha militarmente".

Os avisos do presidente

O presidente da República italiano tem o poder de aprovar ou rejeitar o candidato indicado a primeiro--ministro, bem como a composição do governo.

Só os mais desatentos é que podem ter ficado surpreendidos com Mattarella. No dia 10, numa conferência sobre o estado da União Europeia, advertiu: "Pensar em seguir sozinho é uma pura ilusão, ou pior, um engano consciente da opinião pública." E justificou-se: "Precisamos de redescobrir a Europa, subtraindo-nos da hegemonia dos particularismos sem futuro e de uma narrativa soberanista pronta a propor soluções tão sedutoras quanto impraticáveis."

O Palácio do Quirinal viveu um domingo agitado. Antes de Conte ser recebido, Mattarella reuniu-se com os presidentes dos partidos que formaram o acordo de governo, Luigi Di Maio, do Movimento 5 Estrelas, e Matteo Salvini, da Liga. Um gesto político incomum que já antevia a posição frágil de Conte. Mais sinais de que o presidente não iria ratificar as escolhas de Conte foram as declarações de Salvini. "Se há alguém responsável por não termos um governo pronto a trabalhar amanhã de manhã que se explique a 60 milhões de italianos", atirou o líder da Liga.

Mattarella, antigo juiz do Tribunal Constitucional, não fugiu à questão e explicou-se diante dos jornalistas. "A nomeação do ministro da Economia constitui sempre uma mensagem imediata de confiança ou de alarme para os operadores económicos e financeiros. Pedi para este ministério um representante político (...) que não fosse visto como um apoio a uma linha que poderia causar a inevitável saída da Itália do euro."

A reação do Movimento 5 Estrelas foi de incredulidade. "Digam--nos de forma clara que é inútil votar, uma vez que os governos são feitos pelas agências de notação e pelos lobbies financeiros e bancários. São sempre os mesmos", disse numa mensagem vídeo Luigi Di Maio.

O homem que Mattarella quer como chefe de governo, Carlo Cottarelli, de 64 anos, trabalhou 25 anos no FMI.