Não gostar de romances e não se emocionar, requisitos de um polícia

Paraná, Brasil, está a recrutar polícias. É importante "não mostrar interesse em histórias românticas" e "não se emocionar com facilidade".

A Polícia Militar do Paraná (sul do Brasil) lançou nesta segunda-feira um concurso para recrutar profissionais para 16 cargos, disponíveis para homens e mulheres até aos 30 anos. E enumera 67 critérios avaliados no exame psicológico para recrutamento de cadetes, um dos quais as "masculinidade" dos candidatos, o que gerou críticas.

Nesse teste, de acordo com as condições publicadas, a "masculinidade" é definida como "a capacidade de um indivíduo não se impressionar com cenas violentas, suportar vulgaridades, não se emocionar facilmente, nem tão-pouco mostrar interesse em histórias românticas e de amor".O que é avaliado por "não mostrar interesse em histórias românticas" e não se emocionar com facilidade".

"Não é normal, o Paraná é o quinto estado com maior número de feminicídio do país. É um estado conservador e não pode aceitar este tipo de comportamento porque vai contra a Constituição", disse à Efe Toni Reis, diretor do Grupo Dignidade, uma organização brasileira que luta pelos direitos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais ou transgénero).

Para Toni Reis, essa procura por uma suposta "masculinidade" é um critério que reflete o "machismo institucional no Brasil".

"O que queremos é sejam uma polícia forte, que pode ser firme, mas pode ter sentimentos, não podemos ter um polícia psicopata ou um robô", disse o diretor da organização, acrescentando que já pediram ao Ministério Público que tome uma posição sobre o assunto. "Não pode exigir que as mulheres sejam masculinas ou exigir que os homens não sejam mulheres."

Autoridade nega discriminação

A Polícia Militar do Paraná disse numa nota que "não tolera comportamentos e posições discriminatórias de qualquer natureza" e que todos os testes aplicados "são instrumentos aprovados pelo Conselho Federal de Psicologia", que até ao momento ainda não se pronunciou.

Acrescenta que a expressão "masculinidade" gerou uma "interpretação errada para alguns setores da sociedade", sublinhando que o objetivo do teste psicológico é "avaliar a estabilidade emocional e a capacidade de enfrentar", "aspetos" que, na sua opinião, são "extremamente necessários para a atividade do dia-a-dia".

Aproveitou também para recordar que o mesmo teste, usado desde 2013, "é comum em outras instituições de segurança pública, e até mesmo em empresas privadas", que desejam avaliar a capacidade do candidato de não "ficar impressionado com cenas violentas, vulgares e hostis".

Numa segunda nota, a polícia afirmou ter entrado em contacto com o coautor do teste, Flávio Rodrigues Costa, que atestou a validade do instrumento e que "não tem conotação de diferenciação de género, sexo ou qualquer outra forma de discriminação".

No entanto, para o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná, José Augusto Araújo, o concurso prevê "situações inusitadas" a partir do momento em que se premeiam aspetos "subjetivos", o que pode ser "ilegal e inconstitucional".

"É um absurdo, é uma situação inimaginável, num ambiente que se deseja absolutamente democrático", acrescentou José Augusto Araújo.

A polícia disse, entretanto, que "está a promover um ajuste do termo masculinidade".

Esta polémica junta-se a outra ocorrida recentemente, quando um polícia militar de São Paulo foi ameaçado de morte pelos colegas, acabando por pedir licença temporária depois de ter sido divulgado um vídeo onde aparecia, vestido com o uniforme, a beijar um outro homem.

No Brasil, os assassínios contra a comunidade LGBT cresceram 30% em 2017, face ao ano anterior, com um assassínio homofóbico a cada 19 horas, de acordo com a organização Grupo Gay da Bahia.

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