Marie Laguerre: "Todos se ofereceram para testemunhar, tive imenso apoio"

Apesar de se sentir ultrapassada e submergida pelas mensagens de apoio, Marie Laguerre respondeu a uma série de perguntas feitas pelo DN através do Messenger do Facebook. E confidenciou que tem várias amigas em Portugal

Tudo começou por uma série de insultos e obscenidades que um homem dirigiu à estudante, ao fim da tarde do passado dia 24. Marie, 22 anos, a fazer o estágio de final de curso como engenheira de industrialização de madeira na empresa Bouygues, não se deixou intimidar e respondeu-lhe - "ta gueule!". Ele atirou-lhe um cinzeiro que apanhou numa esplanada, e por pouco não lhe acertou. Mais uma vez ela não se calou, ele avançou na sua direção e deu-lhe uma forte bofetada que deixou marcas num dos olhos. Marie foi para casa mas regressou minutos depois à esplanada, onde recebeu o apoio de todos os presentes que se ofereceram como testemunhas.

O dono do café entregou-lhe a gravação da câmara de segurança para sustentar a queixa na polícia e ela publicou-a também no Facebook e no Twitter. O vídeo desse primeiro post, colocado no dia 25, foi visto até agora por 1,7 milhões de pessoas, teve 7600 partilhas, 2100 comentários e 10 mil reações.

As reações das redes sociais, que constatei na sua página, foram idênticas às que recebeu pessoalmente?

Não segui as reações no Facebook nem na televisão porque fiquei submergida por mensagens. As mensagens que recebi pessoalmente vêm de pessoas que me apoiam ou que me contam a sua própria experiência. É muito tocante e muito forte.

Já há consequências da sua queixa na polícia?

O inquérito avança bem no que diz respeito à minha queixa, sobretudo graças à forte mediatização: sei que tenho sorte, o que não acontece na maioria dos casos.

Como se sente agora? Aliviada?

Hoje sinto-me sobretudo um pouco ultrapassada mais tento tirar o melhor de toda esta atenção para agitar as coisas no que diz respeito aos direitos das mulheres.

O agressor já foi identificado?

O inquérito está a avançar bem, não posso dizer mais nada por agora.

Quantas pessoas se ofereceram para testemunhar a seu favor?

A polícia limitou o número de testemunhas e portanto não ficaram todos, mas todos se ofereceram.

Teve a sensação de que as pessoas que estavam na esplanada ficaram indiferentes?

Não, as pessoas reagiram muito bem! O homem gritava e ameaçava bater em toda a gente. As testemunhas apoiaram-me imenso depois.

Isso mesmo tinha Marie escrito na sua página do Facebook, pedindo que não fosse feito um linchamento das pessoas que assistiram à agressão. "A todos os que dizem que as testemunhas não reagiram como deviam: tudo se passou muito depressa e eles não tiveram tempo de compreender a situação. O agressor era perigoso. Depois da agressão, regressei e as testemunhas deram-me um grande apoio. Por favor não os linchem."

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