Primeiro-ministro nega envolvimento em caso de corrupção no Partido Popular

Mariano Rajoy foi ouvido hoje de manhã no tribunal como testemunha

O chefe do Governo Espanhol, Mariano Rajoy, negou hoje ter beneficiado ou ter conhecimento de um esquema fraudulento que envolvesse o pagamento de quantias a troco da concessão de contratos públicos a responsáveis do Partido Popular, que lidera.

"Nunca", respondeu Mariano Rajoy à pergunta feita pela acusação popular da Associação de Advogados Democratas pela Europa (Adade) sobre se tinha recebido alguma gratificação extraordinária no âmbito do caso Gurtel.

O primeiro-ministro espanhol foi ouvido hoje de manhã como testemunha no tribunal que está a investigar o processo sobre a vasta rede de corrupção que envolve vários responsáveis do Partido Popular (PP, direita).

A acusação quis saber se o atual chefe do Governo, que é líder do PP desde 2004, primeiro-ministro desde 2011 e antes ocupou vários cargos de grande responsabilidade no partido, teve conhecimento ou alguma responsabilidade no desvio de dinheiros e pagamentos ilegais realizados entre 1999 e 2005.

"Nunca me ocupei da contabilidade ou dos assuntos económicos do partido", insistiu Mariano Rajoy, quando interrogado sobre as suas responsabilidades como diretor político de quatro campanhas eleitorais que realizou antes de 2004.

O cargo de chefe do Governo permitiu a Rajoy enfrentar a acusação, durante quase duas horas, num estrado ao mesmo nível e numa mesa ao lado da do juiz, ao contrário do que acontece com outras testemunhas.

O "cérebro" do "caso Gurtel" é o empresário Francisco Correa, que já explicou em tribunal um esquema em que entregava "envelopes" com dinheiro a funcionários públicos e responsáveis políticos eleitos pelo PP, para ajudarem certas empresas "amigas" a ganharem contratos de direito público.

Mariano Rajoy assegurou que ele próprio decidiu em 2004 cortar as relações que havia entre o PP e Francisco Correa, cujas empresas forneciam serviços a esse partido.

Outra figura central no processo é um antigo tesoureiro do PP, Luis Barcenas, que admitiu em janeiro passado que o partido teria "recursos que não apareciam na sua contabilidade oficial", alimentados por doações feitas por homens de negócios.

Por seu lado, Francisco Correa revelou que os empresários que ganhavam certos concursos públicos entregavam "dois a três por cento" do montante.

A audição de hoje foi a primeira, como testemunha em tribunal, de um primeiro-ministro espanhol em funções.

O caso Gurtel está a ser julgado na Audiência Nacional, um tribunal com responsabilidades particulares, ocupando-se dos delitos de maior gravidade, como os casos de terrorismo, crime organizado, narcotráfico e delitos económicos, entre outros.

Este inquérito judicial, com 37 acusados e mais de 300 testemunhas, já provocou a demissão da ministra da Saúde, Ana Mato, no final de 2014, suspeita de ter beneficiado do dinheiro obtido ilegalmente pelo seu ex-marido, Jesús Sepúlveda, o ex-presidente da câmara municipal de Pozuelo (perto de Madrid).

Mariano Rajoy nunca foi envolvido diretamente no caso Gurtel, mas os seus cargos de responsabilidade no PP têm levado os seus opositores a acusá-lo de ter "fechado os olhos" ao esquema.

Este e outros escândalos de corrupção que envolvem membros do PP contribuíram para que o partido perdesse em dezembro de 2015 a maioria absoluta que tinha no parlamento espanhol.

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