Mariano Rajoy e Pedro Sánchez: dois sobreviventes na política espanhola

Um é conservador, da Galiza, outro socialista, de Madrid. Têm 20 anos de diferença. Mas na política sempre seguiram a mesma estratégia: aguentar, aguentar, aguentar. Um para se manter no poder. Outro para conseguir chegar lá. Um percurso cruzado de Rajoy e Sánchez

Mariano Rajoy foi primeiro-ministro de Espanha entre 2011 e 2018, tendo enfrentado as mais diversas crises, desde a económica e financeira, com o pós-resgate dos bancos, à catalã, com referendos a desafiar a unidade espanhola e a promover a independência, passando pela da corrupção, com as investigações a envolver figuras do PP, seja o ex-tesoureiro do partido Luis Bárcenas ou o ex-vice-primeiro-ministro Rodrigo Rato.

A sentença do caso Gürtel, conhecida na semana passada, foi o golpe final. Face às críticas da oposição, que sublinhou o facto de o PP, enquanto partido, ter sido condenado a pagar uma multa no valor de 245 mil euros no âmbito deste processo de corrupção entre empresários e políticos, Rajoy optou pela defensiva, como sempre, dizendo que o partido iria recorrer. Recusou demitir-se. Garantiu que iria ficar no poder até ao final da legislatura em 2020.

E acusou Pedro Sánchez, líder do PSOE, de querer chegar ao poder a qualquer custo, nem que seja cedendo a partidos regionais, como os dos independentistas catalães, para ver a sua moção de censura ao governo passar. Coisa que aconteceu hoje. Sánchez conseguiu reunir o apoio de 180 deputados de vários partidos (precisava de 176) para tirar o poder a Rajoy.

Como primeiro-ministro sempre confiou que argumentar com a lei e a Constituição espanhola seria o suficiente para travar os independentistas que querem uma República da Catalunha. E que o amor a essa mesma Constituição poderia impedir Sánchez de aceitar o apoio de partidos como Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) ou o Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCAT). Enganou-se. Uniram-se para o derrotar. O que acontecerá a seguir ainda está por ver. Mas derrotaram-no. E Sánchez vai tomar posse como chefe do governo espanhol este sábado às 11.00 (menos uma hora em Lisboa).

Natural da Galiza, Rajoy, de 66 anos, foi avisado por José María Aznar em agosto de 2003 que o tinha escolhido para seu sucessor na liderança do PP e candidato à Moncloa em 2004. A escolha, assumiria mais tarde Aznar (primeiro-ministro de 1996 a 2004) recaiu sobre Rajoy porque Rodrigo Rato lhe disse não. Em duas ocasiões. Rajoy disputou - e perdeu - para o socialista José Luis Rodríguez Zapatero as eleições legislativas de 14 de março de 2004 (três dias após os atentados terroristas que fizeram 191 mortos em Madrid).

Quatro anos depois, no escrutínio de 2008, Rajoy voltou a perder para Zapatero. Só à terceira vez, nas eleições de 2011, conseguiu ser eleito primeiro-ministro, com maioria absoluta (a segunda maior da democracia em número de deputados, 183, depois da de Felipe González em 1982 com 202). Desgastado pela crise financeira, imobiliária, económica e social em Espanha, o PSOE, que tinha como candidato o ex-ministro do Interior Alfredo Pérez Rubalcaba, elegeu apenas 110 deputados, o seu pior resultado desde as primeiras eleições a seguir à transição para a democracia.

Mas tal como Rajoy também Sánchez foi subindo no partido através de substituições. Natural de Madrid, Sánchez, de 46 anos, concorreu às eleições municipais na capital espanhola em 2003 mas falhou a eleição. O partido só elegeu os candidatos que estavam na lista até à 21.ª posição e Sánchez era o 23.º Porém, no ano seguinte tornou-se vereador ao ser chamado para substituir Elena Arnedo. Em 2008, não conseguiu ser eleito deputado e manteve-se, até 2013, como professor da Universidade Camilo José Cela. Até que, num dia de janeiro desse ano lhe telefonaram a dizer que seria deputado no Parlamento espanhol, ocupando o lugar deixado vago após a renúncia de Cristina Narbona.

Após os maus resultados do PSOE nas eleições de 2014 para o Parlamento Europeu, Rubalcaba demitiu-se e anunciou que o novo secretário-geral do partido seria eleito de forma direta. A 12 de junho desse ano, Sánchez declarou-se candidato e, a 13 de julho, foi proclamado vencedor. Foi oficializado líder do PSOE num congresso extraordinário e estreou-se como líder da oposição na sessão parlamentar de 10 de setembro de 2014.

No ano seguinte, a 20 de dezembro de 2015, Espanha realiza legislativas. Desta vez, é Sánchez o rival de Rajoy. Mas o bipartidarismo está em crise. O Podemos, filho da crise financeira e económica, liderado por Pablo Iglesias, surgiu para baralhar as contas. Tal como o Ciudadanos, partido cofundado por Albert Rivera na Catalunha, contra a independência, mas cujo sucesso rapidamente se alastrou a nível nacional. Nessas legislativas, nenhum partido tem maioria absoluta, apesar de o PP sair vencedor. O PSOE foi segundo. Sánchez foi encarregado de tentar formar governo pelo rei Felipe VI, como líder do segundo partido mais votado, mas falhou a investidura. Nas duas votações.

Após longo impasse, houve novas eleições, a 26 de junho de 2016 (três dias depois de o brexit ter ganho o referendo no Reino Unido e ter deixado a Europa em choque). Novamente, nenhum partido conseguiu maioria absoluta. PP ficou em primeiro. PSOE em segundo. Regressou o impasse. Foi então que, pressionados a colocar o interesse nacional acima do interesse o partido, os socialistas optaram por viabilizar a posse de Rajoy, através da abstenção. O que aconteceu em outubro. Altura em que Sánchez, por ser contra essa decisão, já tinha dito que se demitia da liderança socialista e deixava o seu lugar de deputado.

A demissão não foi um adeus. Mas sim um até já. A 21 de maio de 2017, Sánchez voltou a ser eleito secretário-geral do PSOE, após derrotar nas primárias os rivais Susana Díaz (presidente da Junta da Andaluzia) e Patxi López (ex-presidente do governo autónomo do País Basco). Entretanto crescia a tensão entre o Estado espanhol e os independentistas catalães. A 1 de outubro os independentistas organizam um referendo ilegal sobre a independência de uma República da Catalunha. Fruto da desobediência, Rajoy aplicou, pela primeira vez na história da democracia, o artigo 155.º da Constituição espanhola, que retirou os poderes à autonomia. Sánchez apoiou.

Realizaram-se eleições catalãs a 21 de dezembro. O Ciudadanos irrompeu como o mais votado. Mas sem chegar à maioria absoluta e viu os independentistas dos vários partidos unirem-se para tentar governar. Apesar disso, a nível nacional, nas sondagens, o Ciudadanos começou a liderar as intenções de voto. Vários políticos catalães foram detidos entretanto e o ex-presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, fugiu. Primeiro para a Bélgica, depois para a Alemanha. A guerra entre os partidos políticos a nível nacional tinha ficado um pouco em segundo plano.

Assim foi, até surgir, no dia 24 de maio, a sentença do caso Gürtel. 29 dos 37 acusados foram condenados. As penas somaram 351 anos de prisão. Só Luis Bárcenas apanhou 33 anos de cadeia (e ainda tem uma multa de 44 milhões de euros para pagar). Sentença foi a oportunidade que Sánchez precisava para tirar Rajoy do poder. E anunciou uma moção de censura. Para a qual conseguiu o apoio do Unidos Podemos, PNV, EH Bildu, ERC, PdeCAT, Compromís e Nueva Canárias. Agora, então, sai Rajoy, entra Sánchez. Tal como o primeiro, o socialista conseguiu chegar ao poder, sim, mas só à terceira.

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