Mamã do Coração, uma gota de água no oceano de Viana

Obra Social apoia desde 2003 os deslocados da guerra, em especial as crianças. Amanhã, o país vai a votos nas eleições gerais.

"Chegar é uma aventura." O aviso prévio ganha outra dimensão enquanto se conquista, metro a metro, o projeto de estrada, que mais parece uma montanha russa, com crateras, pedregulhos, lixo, bancas e caminhantes nas bermas. O destino é a Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, com uma Obra Social que apoia a população do bairro da Estalagem, em Viana, a cerca de 20 quilómetros de Luanda.

A diretora da Obra Mamã do Coração, Fátima Martins, admite que ficou chocada, quando chegou há seis anos. O trânsito é imprevisível, "pode demorar 20 minutos ou três horas", e quando chove, é quase impossível passar. "Ficamos com dificuldade em sair de casa, só para ir às compras. É um desafio enorme", conta Fátima Martins, que se lembra da montanha de lixo que existia ao lado dos portões da Congregação.

Por estes dias, há menos lixo no bairro da Estalagem, onde a Obra Social se instalou em 2003, para apoiar os muitos deslocados de guerra que se concentravam em Viana. Hoje, ainda aqui vivem antigos combatentes, mas o bairro de lata tem sobretudo famílias jovens. Em cada canto, há pequenas crianças ou miúdos mais velhos a jogar futebol. Na Obra Social da Mamã do Coração, ou Mamã Muxima, a creche e o jardim de infância acolhem 160 crianças, desde os três meses até aos cinco anos. As famílias são numerosas, com muitas mães adolescentes. "Raramente têm menos de três crianças" e a diretora da creche, Fernanda Afonso, confessa que enfrenta um dilema quando se depara com agregados de sete ou oito filhos. A Mamã do Coração não pode acolher todos e são os pais que têm de decidir qual das crianças frequentará a creche. É muito difícil quando "outras famílias gritam que precisam de ajuda".

Só as famílias mais carenciadas estão isentas da mensalidade, que apesar de tudo, não ultrapassa os 15 mil kwanzas (cerca de 75 euros), um preço baixo para Angola. O preço inclui o pequeno-almoço, o almoço e o lanche, que para os miúdos mais pobres, podem ser as únicas refeições do dia. A pobreza é extrema, "alguns não têm comida" e a diretora da Obra Social, Fátima Martins, fica de coração apertado quando pensa nas "mamãs com crianças às costas que percorrem quilómetros para vender alguma coisa, de forma a conseguir dinheiro para o jantar". A venda ambulante ilegal disfarça a falta de trabalho e oportunidades, num "meio perigoso, com roubos, violações e esfaqueamentos". Mas na Congregação, nunca houve questões de segurança. Por isso, a Mamã do Coração é "uma gota de água num oceano de tantas necessidades".

O bispo de Viana, Joaquim Lopes, adianta que o desemprego tem aumentado nos últimos anos na cidade satélite de Luanda, com três milhões de habitantes. Outrora um polo industrial, onde se fixaram muitas empresas portuguesas, a crise financeira obrigou os patrões a dispensar trabalhadores ou cortar nos turnos de serviço. Ainda assim, Joaquim Lopes elogia a inteligência e a ambição dos jovens que querem estudar para chegar até à universidade. "Fazem das tripas coração para entrar nas faculdades, suspiram pelos doutoramentos, vendem tudo o que têm para conseguir um curso".

O bispo de Viana, há 45 anos em Angola, "mais velho do que o presidente que sai", conhece João Lourenço, apontado como futuro presidente do país. Joaquim Lopes destaca a humildade e simplicidade do general, que sem grandes discursos, mas com o apoio do MPLA, mostra uma atitude "não arrogante e uma mentalidade moderna". "Foi uma campanha com nível, sem distúrbios", destaca o bispo de Viana, "algo naif, em que os partidos velhos são leões que esgrimem bem as ideias". No entanto, já "não há ódio. Os partidos digladiam-se com palavras que ferem como espadas ou facas de dois gumes, mas são polidas e facilmente aceitáveis." O medo do recurso a uma guerra já não vai acontecer, antevê Joaquim Lopes. "O povo angolano cansou-se e tem perceção muito boa do que é negativo" sendo consensual que "é muito melhor um mau acordo do que uma boa guerra".

Enviada DN/TSF a Luanda

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