Mãe de terrorista identificado tem origens portuguesas

Estava prestes a fazer 30 anos. Tinha dois filhos. Tudo indica que tinha raízes nacionais. O que se sabe do primeiro terrorista

Ismaël Omar Mostefaï, o primeiro terrorista identificado pelas autoridades francesas após os ataques de sexta-feira, em Paris, tinha "origem" portuguesa pelo lado da mãe, confirmou ao DN Éric Moines, o redator-chefe do jornal L"Écho Republicain, de Chartres, a localidade onde morava o suspeito.

"A mãe dele é de origem portuguesa", assegurou o jornalista, acrescentando não saber o nome da mulher nem poder precisar se esta nasceu em Portugal ou é lusodescendente. Confirmou, no entanto, que também "já morou" no bairro que o filho habitava, "mas já lá não mora".

Vários membros da família do terrorista - um dos três homens que dispararam sobre dezenas de pessoas e depois fizeram explodir os coletes armadilhados que vestiam na sala de espetáculos Le Bataclan, causando 89 mortos - foram identificados formalmente pelas autoridades, ficando depois sob vigilância policial. Nomeadamente o pai, dois irmãos e a mulher de um deles.

O procedimento é considerado normal em casos de segurança nacional e não há, para já, indicação de que estes ou outros elementos da família sejam considerados suspeitos de envolvimento nos atentados de sexta-feira. Ainda assim, o L"Écho Républicain adiantou que os investigadores estiveram ontem a fotografar "dezenas" de residências ligadas à entourage de Mostefaï.

Um dos irmãos apresentou-se voluntariamente numa esquadra de polícia logo na sexta-feira, assim que foi divulgada a identidade de Ismaël - identificado pelas impressões digitais contidas num dedo encontrado na sala de espetáculos Bataclan -, tendo afirmado aos investigadores não ter qualquer contacto com o irmão já há vários anos.

O terrorista tinha dois irmãos e duas irmãs e era também pai de duas crianças.

"Tinha alegria de viver"

A notícia de que Ismael Mostefaï seria filho de "pai argelino e mãe portuguesa" foi avançada ontem pela edição online do The New York Times. Uma informação que o secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, disse ao DN não poder confirmar ou desmentir, por não haver registo no consulado nem do suspeito nem da sua mãe. Uma explicação possível, a confirmarem-se estas origens, é que a mulher em causa já tenha nascido em França, nunca tendo chegado a ser registada junto das autoridades portuguesas.

O jornal norte-americano também não identificou a origem desta informação mas, num artigo dedicado ao terrorista, cita o testemunho de um antigo vizinho do terrorista, na Rua Anatole France, no bairro La Madeleine, onde este morava numa habitação social.

Falando sob condição de anonimato, o vizinho disse que Ismaël tinha uma "família normal, como todas as outras", e que era uma pessoa cordial e bem-disposta: "Ele brincava com os meus filhos. Nunca falava de religião. Era normal. Tinha alegria de viver e ria muito."

O certo é que Mostefaï, nascido em Courcouronnes, no dia 21 de novembro de 1985 - faria 30 anos no próximo sábado -, acumulava desde a adolescência um histórico de pequenas condenações, entre 2004 e 2010, nomeadamente por assaltos. Chegou também a ser suspeito de integrar redes de tráfico de droga mas nunca chegou a ser formalmente acusado, aparentemente por falta de provas. Aliás, apesar de ter somado um total de oito condenações, nunca cumpriu qualquer pena de prisão.

A ligação terrorista

Não se sabe ao certo quando e de que forma este homem se aproximou de grupos extremistas islâmicos. De acordo com o Le Journal do Centre, Mostefaï terá sido influenciado por "um islamita radical que veio várias vezes a Eure-et-Loir [o departamento da França de que a cidade de Chartres é a capital] fazer proselitismo". O homem em causa seria um marroquino com documentos belgas.

O certo é que, desde 2010, Mostefaï tinha um ficheiro "S" (de "securité de l"État" ou "segurança do Estado") nos serviços de investigação do seu país. Um documento reservado aos cidadãos suspeitos de constituírem um alto risco de radicalização islâmica.

Ainda assim, numa conferência de imprensa de ponto de situação das investigações, o procurador de Paris, François Molins, confirmou que este suspeito nunca tinha chegado a ser "implicado numa investigação" ou associado a "uma organização terrorista".

Viagens à Síria

De acordo com o jornal Le Monde, no entanto, há agora informações de que o homem teve movimentações suficientemente suspeitas nos últimos anos para merecer uma atenção mais cuidada dos serviços de informação. "Segundo informações obtidas pelo Le Monde, o futuro kamikaze no Bataclan ausentou-se, de facto, do bairro da La Madeleine para uma estada na Síria." Ainda de acordo com este diário, há "um rasto que atesta a sua passagem pela Turquia [habitual ponto de entrada na Síria de jovens que querem juntar-se ao Estado Islâmico] no outono de 2013", mas depois disso "os serviços de informação não voltam a encontrar o seu rasto até à primavera de 2014", quando foi visto entre um pequeno grupo de islamitas que estavam sob observação. "Era, nessa altura, considerado um simples membro do grupo", acrescenta.

Às 21.40 da passada sexta feira, acompanhado por mais dois homens, este suspeito de baixo perfil saiu de um Volkswagen Polo e, na companhia de mais dois homens, irrompeu pelo Le Bataclan, armado com uma kalashnikov e um colete de explosivos, deixando atrás de si um rasto de destruição.

O presidente da Câmara de Chartres, Jean-Pierre Georges, defendeu uma investigação para apurar se existe uma célula terrorista na cidade. O imã da mesquita da cidade, frequentada por Mostefaï, deu ontem uma conferência de imprensa onde condenou os ataques.

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