Maduro resiste a usar Chávez para fazer campanha eleitoral

Ex-presidente, falecido em 2013, menos omnipresente na vida política. Nicolás Maduro antecipou presidenciais. Devem ser antes de 30 de abril. Oposição protesta

No dia 23 de janeiro, a Assembleia Nacional Constituinte comunicou que as eleições presidenciais venezuelanas, previstas para fim do ano, seriam antecipadas para ainda antes do dia 30 de abril. Ficou de ser anunciada a data concreta. A seguir ao anúncio da Constituinte, que não é reconhecida pela União Europeia e uma boa parte da comunidade internacional, o atual presidente, Nicolás Maduro, declarou que é candidato à reeleição. No sábado passado lançou a sua campanha oficial e muitos notaram que, pela primeira vez em muito tempo, esta não estava repleta de referências ao seu antecessor. Longe parecem ir os tempos em que Maduro dizia que Hugo Chávez lhe aparecia sob a forma de pássaro e que ele era o filho do comandante da revolução bolivariana. Chávez morreu de cancro a 5 de março de 2013.

"Apresento-vos em exclusivo o logótipo da campanha com a qual chegaremos à vitória, juntamente com o povo venezuelano", escreveu Nicolás Maduro, na sexta-feira, na sua conta de Twitter. Na imagem, que acompanha o tweet, um M colorido e um slogan que diz: "JuntosPodemosMás. Nicolás Maduro Presidente". A semelhança de nome com o Unidos Podemos, coligação entre o Podemos e a Esquerda Unida em Espanha, não deixou de ser notada pelos principais jornais espanhóis. As ligações entre o Podemos de Pablo Iglesias e o regime venezuelano são há muito motivo de controvérsia. As relações entre os dois países estão tensas e na semana passada Maduro expulsou o embaixador espanhol em Caracas (após a aprovação de novas sanções pela UE).

No Youtube está também a música de estilo reggaeton que serve de hino de campanha do presidente. "Todos com Maduro!" Sem nunca referir o nome de Chávez (apenas fala no comandante), a música foca-se no atual líder. "Nicolás Maduro, motorista de vitórias, está guiando a Venezuela, para a paz e para a glória", diz a música, numa alusão ao facto de o atual chefe do Estado venezuelano ter sido motorista de autocarros. Ao contrário do que sucede agora, nas eleições de há cinco anos a música da campanha chamava-se "Maduro desde mi Corazón" e a letra dizia "Chávez para sempre, Maduro para presidente (escuta como gritam as pessoas). Chávez, juro-te, o meu voto é de Maduro. Com Chávez e Maduro o povo está seguro". No entender do professor de comunicação política Andres Canizalez, citado pela Reuters, "Maduro está, simbolicamente, a tentar enterrar o seu pai político. Se isso for bem sucedido, estaremos perante um processo de metamorfose do processo político que vai do chavismo para o madurismo".

Vários países, como os EUA, já pediram explicações a Maduro sobre estas eleições presidenciais. Outros, como a Argentina, já avisaram que não reconhecerão o resultado do escrutínio. Até porque o Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela decidiu excluir a principal aliança da oposição, a Mesa da Unidade Democrática, do processo de revalidação dos partidos, que permite participação eleitoral. A própria Conferência Episcopal da Venezuela considerou absurdo haver eleições antecipadas "no meio de uma situação de penúria, fome, paralisia de serviços e morte".

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