Maduro rejeita eleições e diz-se pronto a negociar com Guaidó

Presidente venezuelano, numa entrevista à agência russa Ria Novosti, agradeceu o apoio "em todas as frentes" de Putin e apelidou de "ilegais" sanções dos EUA contra petrolífera estatal. Acusou ainda Trump de o mandar matar.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, rejeitou hoje a possibilidade de convocar eleições antecipadas para pôr fim à crise desencadeada pela declaração do líder da Assembleia Nacional como presidente encarregado, mostrando-se disponível para negociar com a oposição e Juan Guaidó. Oposição convocou para hoje novos protestos.

"Estou preparado para me sentar à mesa de negociações com a oposição para falarmos em benefício da Venezuela, em nome da paz e do seu futuro", afirmou Maduro numa entrevista à agência russa Ria Novosti (Sputnik).

Questionado sobre a possibilidade de mediação internacional dessas negociações, Maduro respondeu: "Há vários governos, organizações globais, que demonstraram a sua sincera preocupação com o que está a acontecer na Venezuela, que apelaram ao diálogo."

Maduro rejeitou novamente a hipótese de eleições antecipadas, considerando que aqueles que pedem isso estão a fazer "chantagem" e têm que esperar até 2025. O presidente venezuelano foi reeleito em maio de 2018, numas eleições que grande parte da comunidade internacional (incluindo EUA e União Europeia) não consideraram livres.

Apesar de rejeitar as eleições presidenciais antecipadas, Maduro apoia antecipar as parlamentares. "Seria muito bom realizar eleições parlamentares mais cedo, seria uma boa forma de discussão política, uma boa solução pelo voto popular." A oposição tem a maioria na Assembleia Nacional desde as eleições de 2015.

Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, declarou-se presidente encarregado a 23 de janeiro, sendo reconhecido pelos EUA e mais duas dezenas de países. Maduro mantém o apoio da Rússia e China, entre outros países. Vários Estados membros da União Europeia deram ao presidente um ultimato, que termina no domingo, para convocar eleições, ameaçando reconhecer Guaidó caso não o faça.

Na entrevista, Maduro agradeceu o apoio do presidente russo. "[Vladimir] Putin está a dar-nos apoio a todos os níveis e recebemo-lo com muito agrado e gratidão", afirmou.

Questionado sobre a capacidade da Venezuela pagar as suas dívidas, Maduro disse que o país "honra sempre" os seus compromissos.

Os EUA impuseram novas sanções ao governo venezuelano, atingindo desta vez a petrolífera estatal PDVSA e a subsidiária norte-americana CITGO. "Esta decisão dos EUA viola completamente as normas internacionais, é uma decisão ilegal feita numa tentativa de expropriar os bens venezuelanos, uma empresa venezuelana. É isso que vamos demonstrar. Estou confiente que vamos sair vencedores desta situação, protegendo a CITGO como uma propriedade do povo venezuelano", afirmou.

Segundo Maduro, a decisão de impor sanções contra a PDVSA é "uma das mais imprudentes e malucas decisões" tomadas pelo conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, John Bolton. O mesmo conselheiro que acusa de impedir os contactos com o presidente norte-americano.

"Durante todos estes anos, tenho tentado estabelecer a nível pessoal um diálogo. Mandei mensagem que chegaram a Trump publicamente, através dos media, de forma a estabelecer um diálogo com o governo dos EUA, para ter respeito e diálogo, apesar das diferenças políticas, culturais e ideológicas entre Donald Trump e Nicolás Maduro", indicou, falando na terceira pessoa. "Parecia que a janela de oportunidade esta aberta para isso. Mas Bolton impediu Trump de iniciar um diálogo com Maduro. Tenho informações de que o proibiu", acrescentou.

O presidente venezuelano acredita ainda que Trump deu ordens para o matar. "Ele disse ao governo colombiano, à mafia colombiana para me matar. Se algo acontecer comigo um dia, Trump e o presidente colombiano Iván Duque vão ser responsáveis por tudo o que me acontecer", afirmou.

Juan Guaidó convocou uma grande manifestação para hoje e para o próximo sábado, apelando aos venezuelanos para realizarem as ações de protesto, entre as 12:00 e as 14:00 horas locais (entre as 16:00 e as 18:00 horas em Lisboa).

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