Maduro demite ministra que revelou aumento da mortalidade infantil

Relatório quebrou um silêncio de dois anos sobre estes dados. Oposição procura apoios na América Latina.

O presidente da Venezuela demitiu a sua ministra da Saúde, Antonieta Caporale, depois de, na quarta-feira, o Ministério ter publicado dados alarmantes sobre o aumento da mortalidade infantil. A médica estava apenas há cinco meses e uma semana no cargo.

Segundo o relatório epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, registou-se um aumento anual da mortalidade infantil de 30,12% em 2016, confirmando a grave situação de saúde no país sul-americano. Em 2016, morreram 11 466 bebés de até 1 ano, refere o documento do Ministério da Saúde que publicou estes dados pela primeira vez em dois anos.

Entre as principais causas de morte figuram a sépsis neonatal, pneumonia, a doença das membranas hialinas e o nascimento prematuro. O mesmo relatório informou ainda de um aumento significativo na mortalidade materna (relacionada com a gravidez e/ou parto) em 2016: subiu 65,79% para 756 casos.

Os casos de malária também registaram uma subida de 76,4% para 240 613 infetados na Venezuela, país onde a doença tinha sido erradicada há mais de meio século e que viu um surto atingir 13 dos seus 24 estados. Em 2016, foram também sinalizados no país 29 263 casos de dengue.

O vice-presidente da Venezuela, Tareck El Aissami, através do Twitter, agradeceu a Antonieta Caporale por todo o seu trabalho e compromisso na direção do ministério que liderou até esta semana. O novo responsável da tutela é Luis López Chejade, um farmacêutico que já ocupou funções ministeriais na área da Saúde no governo estadual de Aragua, então liderado por Tareck El Aissami.

Caporale é o primeiro-ministro que deixa o cargo sem um anúncio público por parte de Nicolás Maduro - a sua substituição foi conhecida por publicação no jornal oficial. Anteriormente, o presidente havia afastado a ministra da Agricultura, Emma Ortega, sem uma alocução, como é hábito, mas anunciou-o através do Twitter.

Trump quer fim pacífico

Com a Venezuela mergulhada numa grave crise humanitária e grandes protestos nas ruas do país contra o governo, a oposição está a pedir a outras nações da América Latina que pressionem Nico-lás Maduro a implementar uma "agenda democrática", adiantou ontem Julio Borges, o presidente da Assembleia Nacional, controlada pela oposição.

Borges esteve em Lima, onde se encontrou com deputados e com o presidente peruano, Pedro Pablo Kuczynsk, um dos maiores críticos de Maduro entre os líderes latino-americanos. Kuczynsk disse não ter a intenção de "interferir nos assuntos internos de outros países", mas que os países da região devem apoiar o bem-estar do povo venezuelano.

Na semana passada, Borges encontrou-se com H.R. McMaster, o conselheiro para a Segurança Nacional de Donald Trump, tendo acordado na necessidade de colocar rapidamente e de forma pacífica um ponto final na crise na Venezuela.

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