Maduro defende Constituinte face a ameaças dos EUA e de Bruxelas

Senador norte-americano ameaçou líder venezuelano com "sanções severas", enquanto três eurodeputados, entre eles Francisco Assis, criticam Assembleia "ilegal e ilegítima"

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, não se deixará "intimidar" por ameaças de outros países em relação à realização da Assembleia Constituinte, cujos membros serão eleitos a 30 de julho. Uma resposta ao senador norte-americano, Marco Rubio, que pelo Twitter ameaçou com a instalação de "sanções severas" por parte dos EUA caso os planos de Maduro não sejam cancelados e não se realizam eleições livres. Ontem, foi a vez de três eurodeputados, entre os quais o socialista português Francisco Assis, considerar a Assembleia "ilegal e ilegítima" e avisar que o Parlamento Europeu nunca a reconhecerá.

"O Parlamento Europeu não vai reconhecer os resultados deste procedimento que leva ao estabelecimento de uma Assembleia Nacional Constituinte ilegal e ilegítima", lê-se no comunicado assinado por três eurodeputados. Além de Assis, presidente da delegação do Parlamento Europeu para as relações com o Mercosul, os outros signatários são o líder da Comissão de Assuntos Externos, o alemão David McAllister, e o copresidente da delegação à Assembleia Parlamentar Euro-Latino-Americana (Eurolat), o espanhol Ramón Jáuregui.

Os três eurodeputados consideram que a convocação de uma Constituinte é "um passo inaceitável tanto na forma como no conteúdo, lançando sérias dúvidas sobre a sua constitucionalidade e ameaçando os princípios essenciais de democracia como o voto universal, livre, direto e secreto". Além disso, acreditam que tal Assembleia só servirá para "alimentar mais divisões e confrontos" na Venezuela, sendo novas eleições "a única forma democrática e pacífica para resolver a situação". O Parlamento Europeu já aprovou quatro resoluções a condenar a situação no país e a exigir a libertação dos presos políticos.

Da parte dos EUA, o senador republicano Marco Rubio, da Florida, ameaçou a Venezuela com "sanções severas" caso Maduro mantenha os planos para a realização da Constituinte. "O objetivo da oposição na Venezuela não é vingança. Os protestos vão acabar se o governo de Maduro regressar à ordem constitucional", lia-se no primeiro de quatro tweets sobre o tema. O seguinte enumerava aquilo que acredita ser preciso: libertar e amnistiar todos os presos políticos, cancelar a Constituinte e marcar e organizar eleições com observadores internacionais.

"A reconciliação é possível se o Maduro seguir este caminho. Mas esperem severas sanções norte-americanas que se a a Assembleia Constituinte ocorrer", acrescentou, antes de avisar na última mensagem que "o tempo está a acabar". A Administração Trump já impôs sanções específicas contra vários altos funcionários venezuelanos, incluindo oito membros do Supremo Tribunal e o vice-presidente, Tareck El Aissami, que os EUA dizem estar envolvido em tráfico de droga.

Reagindo às mensagens do Twitter de Rubio, Maduro reiterou que a Venezuela não se deixará intimidar por ameaças de outros países. "Ninguém bloqueará a Venezuela. A Venezuela é um país soberano e não se deixa intimidar", disse a partir do palácio presidencial de Miraflores, numa intervenção transmitida pela televisão estatal. "Nenhum governo nos pode dizer o que podemos, ou não, fazer. Jamais nos renderemos. A Venezuela vencerá com a sua Constituinte e o imperialismo engolirá as suas palavras", referiu.

Este domingo, coincidindo com a consulta informal organizada pela oposição, está previsto decorrer um simulacro das eleições para a Constituinte. Ontem, o único dos cinco membros do Conselho Nacional Eleitoral vinculado à oposição, Luis Emilio Rondón, pediu para se suspender esta "feira eleitoral". Uma grande operação de segurança está prevista para garantir a votação no dia 30, com as autoridades a avisar que fecharão em eleições futuras os centros de voto onde haja violência neste escrutínio. Há mais de três meses que os venezuelanos protestam diariamente contra Maduro e já morreram quase cem manifestantes nos protestos.

O Supremo Tribunal de Justiça deveria ontem pronunciar-se sobre a destituição ou não da procuradora-geral Luisa Ortega, ex-aliada de Maduro que se tornou numa opositora após a convocação da Constituinte. Um dia antes, numa entrevista à rádio argentina Radio Con Vos, Ortega reiterou que vai continuar no cargo para defender a democracia independentemente do que for decidido. "Vou denunciar os magistrados que me estão a processar por não são legítimos", afirmou.

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