Maduro censura série sobre a vida de Hugo Chávez

Internet é a alternativa para os venezuelanos que querem ver o ator colombiano Andrés Parra na pele do ex-presidente

O primeiro capítulo da série de televisão El Comandante começa com uma advertência: "Esta é uma obra de ficção inspirada na vida de Hugo Chávez (...) qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência." A ação começa a 3 de fevereiro de 1992, um dia antes do golpe de Estado que o então tenente-coronel liderou e que marcaria o início da sua ascensão até ao poder na Venezuela. Mas os venezuelanos que queiram ver a série que estreou esta semana na América Latina têm de recorrer à internet porque os 60 episódios produzidos pela Sony Pictures foram censurados pelo governo de Nicolás Maduro.

Alegando que a série criada pelo jornalista e escritor Moisés Naím (crítico do chavismo) "atenta contra o legado" do ex-presidente, a Comissão Nacional de Telecomunicações lançou uma campanha para que os venezuelanos denunciem os operadores de cabo que possam estar a transmiti-la, usando a hashtag #AquíNoSeHablaMalDeChávez (aqui não se fala mal de Chávez). Ao mesmo tempo, a hashtag #NuestroChavezDeVerdad (nosso Chávez de verdade) é usada para partilhar o legado do homem que chegou ao poder através das urnas sete anos após o golpe falhado de 1992 e morreu a 5 de março de 2013 de cancro.

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"Esta é uma história fascinante que não deixa ninguém indiferente e que merece ser contada", disse Naím à revista colombiana Semana. "Acho que quem o apoia e admira o continuará a fazer e quem se opõe e critica continuará a ser crítico. Não acho que a série vá mudar o ponto de vista de ninguém", acrescentou o ex-ministro do Comércio e Indústria de Carlos Andrés Pérez (alvo da tentativa de golpe de 1992), que presidiu ao Banco Central do país e foi diretor do Banco Mundial.

"Há duas coisas que ninguém pode contestar, independentemente da ideologia. A primeira é que Chávez era um político extraordinariamente carismático que seduziu pessoas em todo o mundo. E a outra é que a Venezuela de hoje está destruída por uma enorme crise", indicou Naím à Associated Press, referindo-se aos problemas económicos (com inflação acima dos 700%) e políticos (com a oposição a insistir num referendo revogatório ao mandato de Maduro). "É muito difícil argumentar que a atual tragédia não tem nada que ver com Chávez", referiu o colunista do El País, que vive em Washington. "É óbvio que Maduro não tem nem o carisma, nem o talento, nem a ligação ao povo ou o controlo da situação que tinha Chávez", acrescentou Naím à Semana.

El Comandante, que a Sony diz ser uma obra de ficção baseada na vida de Chávez com "romance, espionagem, traição e heroísmo", é protagonizada pelo ator colombiano Andrés Parra. Algo que também não agradou ao governo venezuelano, visto ele ter ficado conhecido pelo seu papel como o narcotraficante Pablo Escobar na série O patrão do mal, da Caracol TV. Parra, que faz de Chávez adulto (há outros dois atores para a infância e juventude, contadas em flashbacks), passou horas a ver os vídeos do ex-presidente para conseguir imitar a sua forma de falar e os seus gestos.

Mas apesar do alarido na Venezuela, a estreia desiludiu na Colômbia, ficando em 16.º lugar das audiências no horário nobre. E nas redes sociais teve críticas mistas. Houve quem destacasse o desempenho de Parra, mas também quem, mesmo crítico do chavismo, atacasse a série: "Pela primeira vez concordo com Maduro quando diz que o programa El Comandante é lixo", escreveu Jorge E. Já Josmel García, que vive em Caracas, disse esperar que a série "não cometa o erro de mitificar a figura de Chávez. Foi um criminoso e deve ser representado como tal". Por seu lado, Alexa Gomez diz que ver a série de segunda a sexta--feira após viver há 18 anos com o chavismo é "masoquismo".

Em resposta, o ministro da Cultura, Adán Chávez (irmão do ex--presidente), anunciou a rodagem de um filme e de uma outra série televisiva que mostrarão fielmente a vida de Chávez. Além disso a segunda mulher do ex-líder venezuelano, Marisabel Rodríguez, quer processar a produtora: "Acho que na Sony Pictures devem ter a certeza daquilo a que se expõe com a transmissão dessa série pouco séria."

O número dois do PSUV, Diosdado Cabello, revelou no seu programa semanal que a série é financiada por ex-chavistas. "Companheiros que estiveram aqui connosco, e foram para lá com o dinheiro dos venezuelanos, que dizem que não eram ladrões e vivem comodamente nos EUA", afirmou, apontando o dedo ao ex-ministro da Alimentação, Hebert García Plaza, que deixou o país há dois anos quando ia ser acusado de corrupção.

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