Macron responde a coletes amarelos: aumento de 100 euros no salário mínimo

Presidente francês quebrou o silêncio de mais de uma semana após outro sábado de protestos e violência dos coletes amarelos. Movimento já terá custado 0,1 pontos ao crescimento económico no quarto trimestre em França.

O presidente francês, Emmanuel Macron, admitiu que os "eventos da última semana perturbaram profundamente a nação", mas lembrou que "a violência não beneficiará de qualquer indulgência". Macron falou durante 13 minutos aos franceses após mais um sábado de protestos dos coletes amarelos.

"Dei instruções ao governo mais rigorosas, mas antes de tudo não posso esquecer que há uma cólera, uma indignação, que muito dos franceses podem partilhar", referiu o presidente, numa mensagem transmitida às 20.00 locais (19.00 em Lisboa), gravada previamente. "A calma e a ordem republicana devem reinar", defendeu Macron, chamando a atenção para "os oportunistas que beneficiaram das nossas cóleras sinceras".

Macron assumiu responsabilidades, dizendo que há muitos problemas aos quais devia ter conseguido dar resposta, admitindo que terá "ferido" alguns franceses com as suas palavras. "Quero ser muito claro com vocês: se lutei para derrubar o sistema, é precisamente por querer servir o nosso país e por o amar", indicou. "A minha legitimidade não a tiro de nenhum título, mas de vocês. Vários outros países atravessam crises como o nosso, mas acredito que podemos encontrar juntos uma saída", defendeu.

O presidente, que decretou o "estado de urgência económica e social" em França, disse que o primeiro-ministro, Édouard Philippe, apresentará as suas propostas amanhã aos deputados.

Entre essas medidas está a decisão de aumentar em cem euros por mês o salário mínimo (que atualmente é de quase 1500 euros), de não cobrar impostos sobre as horas extras dos trabalhadores desde janeiro (a medida era prevista só em setembro) ou de os reformados que ganham menos de dois mil euros por mês verem anulado o aumento na contribuição social. Há ainda a indicação do pagamento de um "prémio" no final de ano, mas caberá aos patrões decidir se o pagam (não terá imposto).

Mas Macron não recuou no imposto de solidariedade sobre as fortunas: "não haverá recuo", indicou o presidente, referindo que "recuar iria fragilizar" o país, reiterando contudo que a sua vontade é lutar contra a evasão fiscal.

O presidente falou numa "reforma profunda do Estado", dizendo que "um debate sem precedentes vai decorrer a nível nacional" nas instituições francesas, onde "todos farão a sua parte: governo, assembleia nacional, parceiros sociais e associativos, vocês terão a vossa parte". Macron disse que ele assumirá a coordenação do debate, que deve ocorrer em todo o lado. "Vou-me encontrar com os presidentes de câmara, região por região, para conduzir o novo contrato para a nação", afirmou.

"Estamos num momento histórico para o nosso país. Pelo diálogo, pelo respeito, pelo compromisso, vamos ter sucesso", referiu. "A minha única preocupação são vocês, o meu único combate é por vocês, a nossa única batalha é pela França", concluiu, com um "Viva a República, viva a França".

Macron quebrou o silêncio de mais de uma semana após mais um sábado de protestos e violência dos coletes amarelos. No final desse dia de manifestações, limitou-se a agradecer no Twitter às forças de segurança que foram mobilizadas (quase 90 mil agentes em todo o país). "Obrigado pela coragem e o excecional profissionalismo de que deram prova", escreveu.

O presidente já tinha feito uma cedência aos coletes amarelos, anunciando a supressão do aumento da taxa sobre os combustíveis, a reivindicação que tinha levado milhares a saírem às ruas no primeiro sábado, a 17 de novembro. Mas esse anúncio foi insuficiente para travar os protestos do último sábado, quando cerca de 136 mil pessoas se manifestaram por toda a França, tendo havido mais de mil detenções e 320 feridos. Houve ainda ações de vandalismo em várias cidades, como Paris, Bordéus e Toulouse

Antes do discurso do presidente, falava-se numa série de medidas que poderiam ser tomadas, como a isenção de impostos no pagamento de horas extra (que se confirmou) ou o aumento do benefício da segurança social para os mais pobres, com a criação ainda de um benefício excecional de mil euros no máximo, em vez do aumento do salário mínimo, para os trabalhadores que têm baixos ordenados. No final, aumentou o salário mínimo.

Medidas suficientes?

Para muitos dos manifestantes que saíram às ruas nos últimos quatro sábados, só havia uma palavra que queriam ouvir de Macron: "Demito-me." Mas 18 meses depois de chegar à presidência e apesar de enfrentar a mais baixa taxa de popularidade de sempre (18%, segundo umas sondagens, 21% segundo o último barómetro Kantar Sofres-One Poin para o Le Figaro), essa palavra não estava nos planos do presidente, naquela que muitos consideraram a declaração mais importante desde que entrou no Eliseu.

Resta saber qual será a reação das ruas às declarações do presidente: e se conseguirá impedir o "ato V" dos protestos, no próximo sábado.

"São precisas medidas fortes e concretas de imediato, mas temos pouca esperança", afirmou à AFP Laetitia Dewalle, porta-voz dos coletes amarelos em Val-d'Oise. Mais do que anúncios, "esperamos sinceridade" da parte de Macron, "que não esteja a desempenhar um papel", acrescentou.

Os deputados socialistas indicaram, antes, que esperavam a intervenção de Macron para decidir se avançavam ou não com uma moção de censura comum com o grupo da França Insubmissa e os comunistas.

O líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, foi o primeiro a reagir: "Macron pensa que uma distribuição de dinheiro pode acalmar a insurreição dos cidadãos. Cabe a quem está nesta ação dizer se isso lhes convém", afirmou, lembrando contudo que uma parte considerável da população não é abrangida por estas ações, como os desempregados. E apela a que voltem a sair para as ruas.

Reunião prévia no Eliseu

A declaração do presidente foi transmitida em direito nas principais rádios, sites de informação e televisões francesas, que lançaram debates especiais para antecipar o que Macron poderia dizer e analisar depois aquilo que ele disse.

Antes de falar ao país, o presidente esteve reunido durante mais de três horas com 37 representantes de sindicatos, patrões e outros líderes políticos no palácio do Eliseu. O presidente das regiões de França, o centrista Hervé Morin, assegurou no final que Macron não anunciou nenhuma medida durante o encontro. "Macron ouviu-nos, vamos ver se fomos entendidos", disse o secretário-geral do sindicato Força Operária, Yves Veyrier.

"Não temos nenhuma informação sobre a resposta que será dada pelo presidente da República. Vamos ouvir a declaração com muito interesse, mas também um pouco de apreensão, tendo em conta a situação atual", indicou o também sindicalista Laurent Berger. O secretário-geral da Confederação Francesa Democrática do Trabalho fala numa "crise grave" que precisa de uma "resposta a curto prazo sobre o poder de compra e os salários".

Já o presidente da Confederação das Pequenas e Médias Empresas, François Asselin, diz que é urgente uma solução. "A urgência vem de todos os que não vão passar umas boas festas de Natal. Penso em todas as empresas vítimas de uma redução de atividade importante e que, em algumas semanas, arriscam pagar caro", referiu, citado pelo Le Figaro.

Impacto económico

Segundo o ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, a violência e os protestos dos coletes amarelos vai custar 0,1 pontos ao crescimento económico. "Penso que os acontecimentos atuais nos vão fazer perder 0,1 pontos de crescimento da nossa riqueza nacional no último trimestre", afirmou à RTL, recusando contudo rever em baixo o crescimento previsto para este ano, que espera ser de 1,7%.

Já o Banco de França, nas suas últimas previsões, baixou em 0,2 pontos a taxa de crescimento do PIB francês no quatro trimestre de 2018, de 0,4% para 0,2%.

Entretanto a Rússia rejeitou qualquer interferência para "incendiar" os protestos. "Não interferimos e não planeamos interferir nos assuntos domésticos de nenhum país, incluindo a França", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. O jornal The Times revelou que centenas de contas de Facebook e Twitter ligadas à Rússia estavam a ser usadas para incentivar os protestos.

"Terça-feira negra"

Independentemente do futuro do protesto dos coletes amarelos, Macron enfrenta ainda outro problema: a mobilização dos estudantes.

Pelo menos 450 escolas secundárias tiveram hoje perturbações, havendo 50 que estavam bloqueadas. E foram lançados apelos para uma "terça-feira negra", com os alunos a reclamar o fim de uma série de medidas anunciadas, como o procedimento que dá acesso ao ensino superior, a reforma dos bacharelatos ou a criação do chamado serviço nacional universal.

Este é um programa lançado pelo presidente destinado a "fomentar a coesão social" e "desenvolver a resiliência da população faxe às crises que podem afetar a sociedade". A primeira fase, que envolve todos os jovens dos 15 aos 18 anos, implica uma participação obrigatória, enquanto a segunda é voluntária. Está a ser liderado por um general, Daniel Ménaouine, mas não pretende ser uma recreação do serviço militar obrigatório, suspendo há mais de 20 anos.

Na última semana, as manifestações dos estudantes ficaram marcadas por cenas de violência, com a polícia a deter mais de 150 pessoas só num liceu de Mantes-la-Jolie. As imagens dos alunos ajoelhados com as mãos na cabeça chocou a França.

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