Macron defende uma Córsega fiel aos valores republicanos

Presidente afastou uma amnistia para os "presos políticos" mas não pôs de parte a sua transferência para a ilha. Nacionalistas no poder desde dezembro exigem mais autonomia

Terá sido a presença de uma bandeira de França na sala - exigida pela presidência ao lado da Europeia e da corsa - que levou ao atraso na confirmação do encontro entre Emmanuel Macron e os líderes nacionalistas da Córsega, Gilles Simeoni e Jean-Guy Talamoni. Na primeira deslocação à ilha desde a sua eleição em maio, o chefe do Estado francês fez questão de se reunir, ao fim do dia, com o presidente do Conselho executivo e o presidente da Assembleia corsa, num momento em que ganham força as reivindicações dos nacionalistas por mais autonomia. Mas logo à chegada, Macron deixou um recado: "A República deve manter a ambição de dar à Córsega um futuro à medida das suas esperanças". Mas "sem ceder nas exigências que a afastariam dos valores republicanos".

Minutos antes do encontro em Ajaccio, a capital corsa, Talamoni afirmou que seria "preocupante" que Macron "fechasse as portas ao diálogo". Mais cedo, Simeoni falara numa "janela histórica para sair da lógica de conflito".

Macron chegou à ilha ao fim da manhã para uma homenagem a Claude Erignac, autarca assassinado por um comando nacionalista a 6 de fevereiro de 1998. "A Córsega, terra de orgulho, foi manchada por este crime", garantiu Macron, sob o olhar da viúva, Dominique Erignac, mas também de outros convidados, do líder do executivo corso, o autonomista Simeoni, ao ministro do Interior à época do crime, Jean-Pierre Chevènement, que tem manifestado a sua oposição a mais autonomia corsa. Referindo-se à detenção em 2003, após anos em fuga, e à condenação a prisão perpétua de Yvan Colonna, pelo assassínio de Erignac, Macron garantiu: "A justiça da República pôde ser feita" e vai continuar a ser "seguida sem complacência, sem esquecimento, sem amnistia".

Palavras vistas como uma machadada para o executivo corso que pede uma amnistia para os "presos políticos". Um perdão que abrangeria todos os condenados por terrorismo durante as quatro décadas de luta armada na Córsega, incluindo o próprio Colonna, que continua a clamar a sua inocência. Mas uma opção mais realista é a mudança dos detidos para prisões na Córsega para estarem mais perto da família. Ao final do dia Macron foi interpelado em plena rua por Stéfanie Colonna, a mulher de Yvan, que se afirmou chocada com as palavras do presidente, exigindo que o filho de seis anos possa ver o pai que não vê há ano e meio. "Por favor, faça qualquer coisa, não é um animal, é um ser humano", disse, sublinhando não pedir uma amnistia, apenas que o marido seja transferido para a ilha. Um pedido que o presidente não descartou.

Em 2014, os grupos armados corsos entregaram as armas, deixando oficialmente para trás os atentados, sobretudo contra esquadras e casas de férias. Da clandestinidade ao sucesso nas urnas não foram precisos muitos anos. E depois de em junho ter eleito três dos quatro deputados da ilha, desde 10 de dezembro que a Córsega é governada pela Pè a Corisca (Pela Córsega), aliança dos dois principais partidos nacionalistas. Beneficiando da onda independentista vinda da Córsega e aproveitando a desilusão dos franceses com os partidos tradicionais, o novo governo corso tem procurado pressionar Paris a dar-lhe mais autonomia fiscal, a limitar aos residentes na ilha há mais de cinco anos o direito a comprar propriedades em determinadas zonas e a reconhecer o corso como língua oficial, a par do francês.

Apesar de Macron ter admitido mudanças na relação com a Córsega, o facto de o governo ter rejeitado atribuir ao corso estatuto de língua oficial enfureceu os nacionalistas.

Para já, as exigências são de mais autonomia, estando a independência relegada ao estatuto de sonho a longo prazo. Afinal, a Córsega não é a Catalunha. Com os seus 330 mil habitantes, a ilha, mais próxima de Itália do que da França continental, não tem o peso económico em França que aquela região tem na espanhola, contribuindo para apenas 0,4% do PIB francês. Um em cada cinco habitantes vive na pobreza. Mesmo assim, se se tornasse independente hoje, a Córsega seria a 16.ª economia europeia em termos de PIB per capita, segundo um estudo da Universidade Católica de Lille sobre a viabilidade económica da ilha caso se separasse de França. A grande dificuldade, nesse cenário hipotético, seria manter o crescimento que vive muito do turismo e onde o Estado é o principal empregador. O desemprego atinge os 10,5%, um pouco acima da média nacional.

No sábado, milhares de pessoas manifestaram-se nas ruas de Ajaccio para exigir mais autonomia para a Córsega. Como sempre nestes eventos, os números variam, com a autarquia a falar 6000 manifestantes e a organização a apontar para os 25 mil.

Para hoje, último dia da sua visita à ilha, está previsto um discurso em que Macron deve esmiuçar a visão para o futuro da Córsega.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Alemanha

Lar de Dresden combate demência ao estilo Adeus, Lenin!

Uma moto, numa sala de cinema, num lar de idosos, ajudou a projetar memórias esquecidas. O AlexA, na cidade de Dresden, no leste da Alemanha, tem duas salas dedicadas às recordações da RDA. Dos móveis aos produtos de supermercado, tudo recuperado de uma Alemanha que deixou de existir com a queda do Muro de Berlim. Uma viagem no tempo para ajudar os pacientes com demências.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.