Macri retira quadros de Néstor Kirchner e Hugo Chávez do palácio presidencial

Os quadros recheavam as paredes de uma das salas mais emblemáticas da Casa Rosada onde a ex-presidente Cristina Kirchner costumava discursar.

A decisão de remover os quadros da galeria dos Patriotas Latino-Americanos estava tomada há dias mas só esta segunda-feira arrancou o processo de "deskirchnerização" do palácio presidencial argentino, sob as ordens de Mauricio Macri. O convívio do novo presidente com os quadros durou apenas 53 dias.

A galeria dos Patriotas Latino-Americanos, inaugurada em 2010 pela então presidente Cristina Kirchner, tinha as paredes recheadas com 40 quadros de figuras icónicas da América Latina, como o ex-presidente Juan Domingo Péron, o guerrilheiro Che Guevara ou o herói das independências Simón Bolívar.

Os retratos do ex-presidente venezuelano Hugo Chavéz e do ex-presidente argentino Néstor Kirchner foram adicionados em maio do ano passado, tendo sido doados por Nicólas Maduro (atual presidente da Venezuela). A cerimónia de inauguração, que contou com a presença de vários apoiantes do "kirchnerismo", ficou marcada pela emoção da presidente. Os dois quadros vão agora para o museu do Bicentenário.

Os Kirchner governaram a Argentina durante mais de uma década (Néstor foi eleito em 2003 e Cristina em 2007), influenciados pelo movimento peronista fundado por Juan Domingo Perón. Néstor Kirchner faleceu em 2010 com 60 anos de idade e o seu velório decorreu precisamente na galeria dos Patriotas Latino-Americanos.

Para o governo a decisão faz parte de um conjunto de medidas para remodelar a sede do governo, mas num país apaixonado pelos símbolos do passado, a remoção das pinturas é vista como um golpe duro para os adeptos do kirchnerismo.

As primeiras críticas à decisão de Macri, que tomou posse a 10 de dezembro, surgiram da oposição moderada. O líder da Frente Renovadora (ex-kirchnerista) e ex-candidato à presidência, Sergio Massa, vê a medida como uma "provocação desnecessária". "Se queremos construir a Argentina com base na união nacional, há que desenhar uma linha e concentrar-nos nos temas que nos unem e não nos que nos separam".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Alemanha

Lar de Dresden combate demência ao estilo Adeus, Lenin!

Uma moto, numa sala de cinema, num lar de idosos, ajudou a projetar memórias esquecidas. O AlexA, na cidade de Dresden, no leste da Alemanha, tem duas salas dedicadas às recordações da RDA. Dos móveis aos produtos de supermercado, tudo recuperado de uma Alemanha que deixou de existir com a queda do Muro de Berlim. Uma viagem no tempo para ajudar os pacientes com demências.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.