Luz, medicamentos ou comida. Retrato da escassez na Venezuela

Saúde, educação e habitação tornaram-se sinónimos da revolução bolivariana sob a liderança de Hugo Chávez. Agora, cresce o desabastecimento, a insegurança e a contestação a Nicolás Maduro.

Comida. Filas de várias horas para alimentar a família

O desabastecimento obriga as famílias venezuelanas a passar horas em filas em frente aos supermercados para comprar produtos básicos cujo preço é subsidiado, como o arroz, o azeite, o açúcar ou a farinha de milho (que custa agora dez vezes mais do que no início do ano). Aguardam a chegada dos camiões, nunca sabendo o que trazem ou o que vão poder comprar - o consumo é controlado para evitar a revenda de produtos no mercado negro, com as redes sociais a serem usadas como montra para trocas. Para muitos venezuelanos, saltar uma refeição diária já é a norma. O governo do presidente Nicolás Maduro acusa a oposição e os empresários de direita de estarem por detrás da "guerra económica", mantendo os produtos armazenados e impedindo que cheguem às prateleiras dos supermercados. Empresas como a Coca-Cola ou a Polar (na foto) já tiveram de parar a produção por falta de matérias-primas, com o governo a autorizar os trabalhadores a tomarem o controlo das fábricas.

Dinheiro. Inflação recorde que aumento salarial não cobre

A escassez de produtos faz disparar a inflação na Venezuela, que em 2015 registou o valor mais elevado do mundo: 180%. E o cenário é ainda mais negro para os próximos anos, com as estimativas do Fundo Monetário Internacional a dizerem que pode chegar aos 720% neste ano e aos 2200% em 2017. Os constantes aumentos do salário mínimo e das pensões decretados por Maduro (a 1 de maio anunciou um aumento de 30%, o 12.º desde que foi eleito presidente em 2013) são insuficientes e contraprodutivos. "Em vez de ajudar os venezuelanos vai prejudicá-los, pois implicará uma maior aceleração dos preços, em plena crise de escassez de bens", disse a economista Anabella Abadi, da empresa ODH, à imprensa local.

Medicamentos. Farmácias falam em crise humanitária

A saúde costuma ser apontada como uma conquista da revolução bolivariana, iniciada pelo falecido presidente Hugo Chávez depois de ter sido eleito em 1999. Mas os relatos que chegam atualmente do país apontam para uma deterioração dos indicadores. O The New York Times, que publicou neste mês uma reportagem sobre maternidades venezuelanas, indicou que a taxa de mortalidade neonatal nos hospitais públicos aumentou de 0,02% em 2012 para mais de 2% em 2015. No dia em que os jornalistas fizeram a reportagem, morreram sete bebés só num hospital. Em abril, a Federação Farmacêutica da Venezuela falou numa "crise humanitária", citando um desabastecimento de 80% e a falta de disponibilidade de 826 medicamentos essenciais.

Água e luz. El Niño piorou um problema antigo

Num país onde 70% da eletricidade é produzida em centrais hidroelétricas, a seca provocada pelo fenómeno climático El Niño veio provocar cortes não só no abastecimento de água mas também de luz. Os problemas não são novos, mas têm vindo a piorar. Uma reportagem do The Wall Street Journal, publicada no início de abril, dizia que na ilha Margarita (um dos principais destinos turísticos do país) o governo só garantia água potável uma vez a cada 21 dias. Em Caracas, o abastecimento estava interrompido entre dois e quatro dias por semana. A falta de água obrigou também a cortes de luz: a situação é tão grave que os funcionários públicos só trabalham apenas dois dias por semana para poupar eletricidade.

Gasolina. Ainda é mais barata que a água mas subiu 6000%

A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo e a sua dependência do ouro negro explica a crise económica. Quando o preço do barril rondava os 130 dólares, o país tinha dinheiro para investir nos programas sociais. O problema é que agora ronda os 50 dólares. Com tanto petróleo, a gasolina sempre foi subsidiada pelo Estado e por isso muito barata na Venezuela. Em fevereiro, o presidente anunciou a primeira subida de preços desde 1997, para poupar nos subsídios. O combustível continua a ser mais barato do que a água - segundo as contas feitas há três meses, um dólar seria suficiente para comprar mais de 170 litros - mas ainda assim houve um aumento de 6000%. Em 1989, a proposta de aumentar a gasolina em 100% foi um dos rastilhos para violentos protestos contra o então presidente, Carlos Andrés Pérez. Mas desta vez os venezuelanos aceitam o aumento.

Segurança. Três cidades entre as mais violentas do mundo

Em fevereiro, o governo venezuelano anunciou que a taxa de homicídios caiu em 2015 para 58 em cem mil habitantes - contra 62 em cem mil no ano anterior. Mas a Venezuela continua a ser um dos países mais inseguros do mundo, com três das suas principais cidades entre as dez mais perigosas - com Caracas à cabeça, Maturín em 5.º e Valencia em 7.º. Nos três primeiros meses deste ano, houve 4700 homicídios e 74 linchamentos populares (metade dos quais acabaram por se revelar mortais), prova do descrédito dos venezuelanos na justiça.

Liberdade. Oposição fala em dezenas de presos políticos

Os protestos do início de 2014 contra Nicolás Maduro acabaram com a morte de 43 manifestantes e vários opositores, como Leopoldo López, detidos e condenados por incentivar a violência. A oposição diz que são presos políticos e que como eles há mais cerca de sete dezenas na Venezuela. O governo fala em políticos presos. No meio da crise de desabastecimento e insegurança e depois de ter conseguido uma maioria absoluta nas eleições parlamentares de dezembro, a oposição deu os primeiros passos para a realização de um referendo revogatório do mandato de Maduro - um processo que, a avançar, vai ser longo.

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