Lula versus Moro. O combate do século é hoje em Curitiba

Ex-presidente em depoimento ao juiz da Lava-Jato. Em causa, propriedade ou não de apartamento. Claques preocupam polícia.

O Brasil prepara o depoimento de Lula da Silva, presidente de 2003 a 2010, a Sergio Moro, juiz coordenador da Operação Lava-Jato, como uma final de campeonato. "Combate do Século", "Ato Monstro" e "Hora da Verdade" são as chamadas a apelar à presença, hoje às 18.00 de Lisboa no Tribunal de Justiça de Curitiba, de militantes pró e anti-Lula. Na imprensa, a revista Veja fez capa com "Moro versus Lula", ilustrando ambos como super-heróis. A Folha de S. Paulo regista em editorial o clima de "exaltação e passionalidade" em torno do interrogatório.

Moro vai ouvir Lula, réu em cinco ações relacionadas com a Lava-Jato, a propósito da suposta propriedade de um tríplex no Guarujá, zona balnear no litoral do estado de São Paulo. Sustenta a acusação que o antigo presidente beneficiou de desvios da Petrobras para compra e realização de obras no apartamento. A defesa de Lula nega.

O choque em redor do depoimento começou há semanas, quando o líder do Partido dos Trabalhadores apresentou nada menos do que 87 testemunhas de defesa. Em retaliação, o juiz da Lava-Jato determinou a sua presença em cada um desses depoimentos. Mais tarde, essa determinação, considerada "invulgar" pela maioria dos juristas, foi retirada. "O réu tem o direito de estar presente, não a obrigação", opinou na ocasião o criminalista Guilherme Rezende, no jornal O Estado de S. Paulo.

Depoimentos recentes de Léo Pinheiro, dono da construtora OAS, e de Renato Duque, ex-quadro da Petrobras, revelando que Lula pediu para destruir provas da sua participação no esquema de corrupção do Petrobras aqueceram ainda mais as vésperas do depoimento.

Mas o tom de confronto foi sobretudo amplificado pela adesão de anónimos a movimentos que pediam a comparência em frente ao Tribunal de Curitiba no dia 3 de maio, a primeira data prevista para o interrogatório, posteriormente adiada a pedido da Secretaria da Segurança do Paraná por motivos de segurança.

À imprensa, membros dos movimentos sociais favoráveis a Lula, como a Frente Brasil Popular, o Movimento dos Trabalhadores sem Teto, a Central Única dos Trabalhadores, o Partido da Causa Operária ou a Nação Hip Hop falam na presença de mais de 100 mil apoiantes, que preparam caravanas automóveis e acampamentos. A Frente Brasil Popular distribuiu mesmo uma espécie de manual de atuação aos militantes - "não devemos entrar em provocações e é preferível andarmos sempre em delegações para não corrermos riscos de ataques por parte dos coxinhas [equivalente a betinhos, em Portugal]" - e aconselhou o uso de um "kit militante", composto por colchão, roupa de cama, toalha lavada e objetos de uso pessoal. Militantes do PT de Curitiba, em paralelo, já ofereceram alojamento a companheiros que venham de fora.

"Seremos 100 mil guarda-costas para ninguém chegar nem perto", disse Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária. "Vamos para mostrar que movimentos sindicais, partidários e outros setores da população não concordam com a judicialização da política", acrescentou Adilson Sousa, do diretório do PT de São Paulo. Carlos Zarattini, deputado do PT, revelou temer a detenção de Lula - "o Moro é capaz de tudo" - e garantiu que o grupo parlamentar do partido estará em peso em Curitiba.

Do outro lado, grupos organizados na internet que já se haviam unido em torno do impeachment de Dilma Rousseff, como o Nas Ruas e o Revoltados Online, também se mobilizam: os primeiros vão levar centenas de pixulekos - bonecos insufláveis com a imagem de Lula vestido de presidiário - e os segundos juntarão 10 mil motos, numa ação inspirada nos bikers for Trump, grupo de motards que seguia os comícios do candidato à presidência dos EUA. "O pessoal deles quer confusão, as motos vão colocá-los na linha", disse Marcello Reis, do Revoltados Online. Na cidade, já estão espalhados também cartazes hostis ao antigo presidente, com a sua imagem numa cela e a inscrição "a República de Curitiba te espera de grades abertas".

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