Lula vai aceitar ser um superministro de Dilma

No governo, ex-presidente pode controlar base aliada, preparar terreno para candidatura em 2018 e abrigar-se do juiz Sergio Moro

Depois de avanços e recuos, Lula da Silva vai aceitar ser super-ministro de Dilma Rousseff. Formalmente no governo, o ex-chefe de Estado poderá ocupar-se das negociações com a base aliada do Partido dos Trabalhadores (PT) para evitar o impeachment da sucessora, enquanto se abriga do juiz Sérgio Moro, responsável da Lava-Jato, ao ganhar imunidade judicial que lhe permite ser julgado apenas pela mais alta corte do país, o Supremo Tribunal Federal (STF). Mas a críticas, a escolha de Lula não está imune.

"É uma falta de vergonha, de escrúpulos, de respeito para com os brasileiros e a justiça", opinou Ricardo Noblat, colunista d"O Globo. O cientista político Carlos Melo, em artigo n" O Estado de S. Paulo, considera "de alto risco" a estratégia do PT: "A trama não se resume a protegê-lo mas a primeira leitura é que Lula foge da justiça para deixar a sua sorte nas mãos do STF".

A oposição, através do porta-voz do Democratas (DEM), partido de direita, já havia admitido quando a hipótese foi levantada na semana passada queixar-se à justiça com base em conceitos como "o princípio da moralidade" e "da farsa processual".

Marco Aurélio Mello, um dos 11 membros do STF, também reagiu. "Nada garante que o STF será benévolo com Lula". De facto, no julgamento do Mensalão, que tinha a cúpula do PT entre os réus, o comportamento da principal corte do país foi considerado particularmente duro.

Fator PMDB

O discurso do PT e do governo é de que a decisão é política, sem nada de judicial. "Quem pode recusar um Pelé na equipa?", perguntava-se Ricardo Berzoini, ministro da secretaria da presidência e entusiasta da ideia.

Lula é considerado, até pelos rivais, um Pelé da articulação política em Brasília, no Congresso Nacional e com a base aliada, nomeadamente o Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB), que tem dado sinais de que pode aliar-se ao oposicionista Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), votando a favor do impeachment. Nesse caso, o vice-presidente Michel Temer, líder do PMDB, assumiria o governo até 2018 com apoio do PSDB, preparando, em troca, terreno para o candidato tucano às eleições.

"Não adianta pois a Lula ser ministro se não seduzir o PMDB, sem ele afunda ao lado de Dilma", disse fonte próxima do ex-sindicalista. Notícias de Brasília dão conta de uma tentativa de aproximação de Lula a Temer, que, para já, tem evitado encontros com o líder petista.
Mas Lula não quer ocupar-se só de política. Já terá dito a Dilma que deseja intervir na economia, a área que, segundo o seu diagnóstico, foi o motor das manifestações de domingo. Com poder na área orçamental, o ex-presidente teria a capacidade de acalmar as bases do PT, críticas das reformas que Nelson Barbosa, titular da economia, propõe. E com isso pavimentaria a sua candidatura à presidência nas eleições de 2018.

Fórmula Putin

Até lá, a Dilma, cuja habilidade para gerir a economia e as intrincadas relações com o Congresso Nacional têm sido postas em causa até pelo PT, não caberia mais do que o papel de Rainha de Inglaterra. Ou, numa comparação mais justa, o de Dmitri Medvedev, presidente tampão da Rússia entre os dois consulados de Vladimir Putin.

Por agora, as notícias dando conta da entrada de Lula no governo fizeram a Bovespa, bolsa de São Paulo, cair quatro pontos e o dólar subir perto de dois por cento.

Por outro lado, Dilma mexeu no governo por obrigação: Wellington Cesar, que substituíra José Eduardo Cardozo na Justiça, ficou menos de 11 dias no cargo por acumular função na procuradoria-geral da Bahia incompatível com a posição no executivo. Eugênio Aragão é substituto.

E o STF homologou a delação premiada do ex-senador do PT Delcídio do Amaral, na qual acusava Lula, Dilma e Aécio Neves de envolvimento no Petrolão. E na mais recente parcela do seu depoimento divulgada, Delcídio adiantou ainda que Aloizio Mercadante, atual ministro da Educação e ex-número 2 de Dilma, lhe ofereceu dinheiro em troca do seu silêncio. Segundo fontes do Planalto citadas na imprensa, a presidente ficou "atónita" com a revelação.

*em São Paulo

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

Foi Centeno quem fez descer os juros?

Há dias a agência de notação Standard & Poor's (S&P) subiu o rating de Portugal, levando os juros sobre a dívida pública para os níveis mais baixos de sempre. No mesmo dia, o ministro das Finanças realçava o impacto que as melhorias do rating da República têm vindo a ter nas contas públicas nacionais. A reacção rápida de Centeno teve o propósito óbvio de associar a subida do rating e a descida dos juros às opções de finanças públicas do seu governo. Será justo fazê-lo?