Lula denuncia em depoimento estar a ser alvo de "massacre"

Ex-presidente falou pela primeira vez como réu no âmbito da Lava-Jato. Responde por tentativa de obstrução da justiça.

"Doutor, eu tenho sido vítima nos últimos mais ou menos três anos de um massacre", disse ontem à tarde Lula da Silva, no primeiro depoimento no âmbito de um processo relativo à Lava-Jato. À Justiça Federal de Brasília, durante quase uma hora, o antigo presidente do Brasil falou na condição de um dos sete acusados de obstruir os trabalhos da operação, ao tentar evitar que o antigo diretor da Petrobras Nestor Cerveró assinasse acordo de delação premiada, numa ação penal cujos factos remontam a novembro de 2015.

Na ocasião, o então senador do PT Delcídio Amaral foi gravado num quarto de hotel pelo filho de Nestor Cerveró a planear a fuga do pai para o Paraguai sem assinar acordo de delação. Depois de perder o mandato no Senado por falta de decoro, Delcídio disse que falava a mando de Lula. Segundo Delcídio, outro dos acusados de obstrução à justiça por pretender silenciar Cerveró é José Carlos Bumlai, empresário e amigo pessoal do antigo sindicalista.

"Um cidadão que foi presidente da República de repente é apanhado de surpresa por manchetes de jornais todo o santo dia, ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar com alguém insinuando "tal empresário vai prestar uma delação e vai acusar o Lula", "agora vão prender fulano, vão pegar o Lula", "prenderam o Bumlai, vai delatar o Lula", "prenderam o Delcídio, vai delatar o Lula", "prenderam o Papa, vai delatar o Lula", o senhor sabe o que é acordar todos os dias achando que a imprensa está à porta de casa porque vai ser preso?", afirmou o antigo presidente diante do juiz, denunciando mais uma vez o "massacre" de que diz ser alvo.

"O que mais me ofende é chamarem o PT de organização criminosa, doutor, quando nós fortalecemos as instituições como nenhum outro partido, fiquei oito anos enquanto presidente sem ir a jantares ou casamentos ou aniversários precisamente para que não me pedissem favores, duvido que entre os que estão presos e os que vão ser presos, haja um empresário ou um político que tenha a coragem de dizer que um dia me deu dez reais ou que tenha a coragem de dizer que eu lhe dei cinco centavos a ele", continuou o pré-candidato às eleições de 2018.

Sobre Bumlai, Lula da Silva disse que é uma pessoa pela qual "tem profundo respeito" mas com quem nunca falou de negócios. A propósito de Cerveró afirmou ter ficado a conhecê-lo "só agora que ele ficou famoso", porque quem o conhecia, sublinhou o ex-presidente, "era o Delcídio", com quem, aliás, está "chateado" por causa de o ter envolvido neste assunto. Lula admitiu ter falado sobre a Lava-Jato com o ex-senador "porque hoje no Brasil a gente fala ao pequeno-almoço, ao almoço, ao jantar e depois da novela sobre isso".

À entrada da sede da justiça federal estavam duas dezenas e meia de populares, todos favoráveis ao presidente que governou o Brasil dentre 2003 e 2010, e nos prédios limítrofes havia inscrições nas paredes em sua defesa. A polícia, no entanto, fechou a maioria das ruas que circundavam o edifício. Além deste caso, Lula é réu em mais duas ações decorrentes da Lava-Jato e noutras duas operações policiais.

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