O que se comia nos jantares dos reis de Portugal?

O livro "Arte da Cozinha", de 1876, foi reeditado no Brasil

Sopa 'royal', bacalhau de cebolada à diplomata ou pudim à brasileira faziam parte dos jantares dos reis de Portugal e dos imperadores do Brasil, receitas que constam do livro histórico "Arte da Cozinha", a apresentar hoje em Brasília.

A obra, cuja primeira edição data de 1876, traz mais de 100 receitas criadas pelo cozinheiro português João da Matta para jantares organizados pelas famílias reais de Portugal e imperial brasileira.

A apresentação em fac-simile, com dois mil exemplares, decorre hoje à noite na embaixada portuguesa em Brasília, com o objetivo de "reforçar os laços históricos que unem Brasil e Portugal com o resgate dos elementos do património histórico comum", segundo a embaixada.

O 'chef' português Vítor Sobral vai recriar, num jantar, algumas das receitas que constam no livro: a refeição começa com uma sopa 'royal', seguindo-se camarão de fricassé, sendo os pratos principais bacalhau de cebolada à diplomata e arroz de cabrito. Para sobremesa, pudim de pão à brasileira.

No essencial, Vítor Sobral garante que vai respeitar as receitas originais, com "pequenas alterações".

"À época, a cozinha francesa estava muito em voga" e as receitas "têm muita manteiga", um elemento que o cozinheiro português vai reduzir, disse à Lusa.

Mas o livro também apresenta receituário da cozinha regional portuguesa e brasileira: "Há uma mistura das culturas".

"É uma 'cozinha de sobrevivência', em que a técnica era muito idêntica, mas os produtos não eram iguais em todo o lado, por isso fazia-se em função daquilo que estava disponível", descreveu Vítor Sobral.

O 'chef' português, com restaurantes nos dois países, garante que "a mesa é uma boa forma de recordar a importância que Portugal tem para o Brasil e vice-versa".

A bibliotecária e idealizadora do lançamento desta nova edição, Ethel Valentina, contou à Lusa que o livro faz parte do acervo de 460 obras raras do Grémio Literário Recreativo Português, localizado na cidade brasileira de Belém, que tem ao todo entre 35 e 40 mil títulos.

"É um livro muito contemporâneo porque todos os ingredientes daquela época ainda são usados hoje. Além disso, a narrativa não traz uma lista de ingredientes, mas simula uma conversa do cozinheiro com o leitor, formando uma espécie e poesia gastronómica, onde são contatados os procedimentos de preparo das receitas", disse.

A especialista acrescentou que a edição que será reeditada de "Arte de Cozinha" é o único exemplar que existe no Brasil que se tem notícia.

Ethel Valentina também explicou que as vendas desta nova edição de "Arte de Cozinha" serão revertidas para a preservação e digitalização de todo o acervo da biblioteca, composta também por fichas de inscrição e registos portuários de portugueses quando eles chegaram ao Brasil, que têm grande relevância histórica.

A participação na apresentação do livro, em Brasília, é um dos pontos do programa da visita do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, ao Brasil, que começou esta quinta-feira em São Paulo e que decorre até à próxima segunda-feira.

No sábado, o governante português contactará com a comunidade portuguesa em São Luís, no estado do Maranhão, viajando depois para a cidade de Manaus, que visita pela primeira vez.

Nesta cidade, situada na Amazónia, José Luís Carneiro participa, entre outras iniciativas, no II Encontro de Associações Portuguesas do Norte do Brasil.

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