Liu Xiaobo ou o ativista que "não devia ser preso"

Distinguido com o Nobel da Paz em 2010, foi libertado para ser tratado a cancro terminal. A mulher está sob prisão domiciliária.

"Não conheço a situação de que está a falar". Foi com estas palavras que o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Geng Shuang, respondeu a uma pergunta sobre a transferência do Nobel da Paz Liu Xiaobo para um hospital, sob liberdade condicional, para tratamento a um cancro de fígado em fase terminal.

O diagnóstico do cancro sucedeu em maio e Liu foi libertado dias depois, tendo sido transferido para um hospital em Shenyang, na província de Liaoning (de onde é natural), disse ontem um seu advogado. O ativista sofre também de hepatite crónica. O advogado indicou que a libertação de Liu tem apenas caráter humanitário.

Liu, de 61 anos, foi distinguido pelo comité Nobel norueguês em 2010 pelas suas ações não violentas em favor de maior democracia, liberdade de expressão, associação e religião na China, reivindicações sintetizadas num documento conhecido como Carta 08 e divulgado, precisamente, em 2008, quando se realizaram os Jogos Olímpicos de Pequim. O presidente do comité Nobel norueguês, Berit Reiss-Andersen, divulgou um comunicado em que afirma que Liu "não devia ser preso por ter exercido o seu direito de liberdade de expressão". Reiss-Andersen espera que as autoridades de Pequim "concedam liberdade total, incluindo o direito de viajar para o estrangeiro". Expectativa, provavelmente, muito difícil de se concretizar, como se pode subentender das palavras do porta-voz do MNE, Geng Shuang. Era ontem recordado que, ao ser atribuído o Nobel da Paz em 2010 a Liu, preso no ano anterior e condenado a 11 anos de prisão, a grande maioria dos comentadores considerava então que Pequim não manteria um laureado com aquela distinção muito tempo atrás de grades. Enganaram-se. Na época, as autoridades chinesas desenvolveram fortes pressões diplomáticas sobre a Noruega para evitar a atribuição a Liu e impediram que viajasse para Oslo, onde acabou por estar representado por uma cadeia vazia. Liu foi um dos três únicos laureados a receber o Nobel da Paz enquanto preso. Os outros foram o pacifista alemão Carl von Ossietzky (1935) e a birmanesa San Suu Kyi (1991).

Liu foi o único dos autores e dos 300 signatários da Carta 08 (inspirada na Carta 77, de Vaclav Havel e outros intelectuais e ativistas checoslovacos na época do regime comunista) a ser condenado a dura pena de prisão, acusado de "subversão", num julgamento que não durou mais de duas horas. Anteriormente a 2009, fora detido várias vezes desde os acontecimentos de maio-junho de 1989 na Praça Tiananmen. Foi então preso e permaneceu detido até 1991, sem qualquer acusação. E entre 1993 e 1996 esteve num campo de reeducação pelo trabalho. Por seu lado, a mulher, Liu Xia, que ontem permaneceu incontactável, está sob prisão domiciliária desde 2010, sofre de depressão e teve um ataque cardíaco em 2014, de acordo com ONG de direitos humanos. O irmão de Liu Xiaobo foi condenado em 2013 a 11 anos de prisão por evasão fiscal.

Considerado pelo comité Nobel como o "exemplo por excelência" da luta pelos direitos humanos na China, Liu é licenciado em Literatura e ensinou na Universidade de Pequim. Após Tiananmen, foi-lhe oferecido asilo política na Austrália, referia ontem a BBC. Recusou por que pensava que seria mais útil à China se não deixasse o país.

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