Irlanda elege primeiro chefe de governo mestiço e homossexual

Leo Varadkar é também o político mais jovem neste cargo

Leo Varadkar, de 38 anos, mestiço e homossexual, foi hoje nomeado líder do partido irlandês de centro-direita Fine Gael, pelo que se tornará primeiro-ministro da Irlanda daqui a dez dias.

Varadkar, que será o mais jovem chefe do executivo da história do país, foi eleito para a liderança do partido com 60% dos votos, contra Simon Coveney, indicou o partido na rede social Twitter.

A chegada ao poder de uma pessoa com um perfil como o seu ilustra as profundas mudanças sofridas pela sociedade irlandesa, de forte tradição católica, nas últimas duas décadas.

Não sou um político meio-indiano, nem político médico nem sequer um político <em>gay</em>. Isso são algumas das minhas facetas. Não me defino só por isso

Varadkar, que é médico de formação, é descendente de pai indiano (Ashok Varadkar, também médico) e de mãe irlandesa (Miriam Varadkar, enfermeira).

"Não sou um político meio-indiano, nem político médico nem sequer um político gay. Isso são algumas das minhas facetas. Não me defino só por isso", disse Leo Varadkar em 2015.

O novo governante sucederá a Enda Kenny, que anunciou a sua demissão em meados de maio. Eleito primeiro-ministro em 2011, Kenny, de 66 anos, foi reeleito em maio de 2016, após mais de dois meses de impasse parlamentar.

Mas, sem maioria no parlamento, o líder do Fine Gael só aguentou um ano à frente do frágil Governo irlandês.

De facto, Enda Kenny só conseguiu a reeleição, após quatro votações do parlamento, graças ao apoio dos deputados independentes, e após um acordo com o Fianna Fail, principal formação da oposição, para que não se opusesse à constituição de um Governo minoritário.

Em troca, o Fianna Fail obteve um aumento da despesa pública e a suspensão de um imposto sobre a água, que valera ao Fine Gael gigantescas manifestações nas ruas de Dublin.

Instaurada no início de 2015, essa taxa sobre a água cristalizou o ressentimento dos irlandeses em relação à política de austeridade aplicada nos últimos anos pelo Governo de Kenny, enquanto a economia do país, depois de ter sofrido com a crise financeira, registou um crescimento de 7,8% em 2015 e de 5,2% em 2016.

A saída de Enda Kenny foi também precipitada pelas muitas críticas desencadeadas pela sua gestão de um escândalo dentro da polícia, revelado em fevereiro.

O seu Governo foi acusado de ter deixado os seus serviços arruinarem a reputação do agente policial que deu o alerta, indevidamente acusado há alguns anos de agressão sexual a crianças.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Crespo

E uma moção de censura à oposição?

Nos últimos três anos, o governo gozou de um privilégio raro em democracia: a ausência quase total de oposição. Primeiro foi Pedro Passos Coelho, que demorou a habituar-se à ideia de que já não era primeiro-ministro e decidiu comportar-se como se fosse um líder no exílio. Foram dois anos em que o principal partido da oposição gritou, esperneou e defendeu o indefensável, mesmo quando já tinha ficado sem discurso. E foi nas urnas que o país mostrou ao PSD quão errada estava a sua estratégia. Só aí é que o partido decidiu mudar de líder e de rumo.