Largou tudo e foi para o Chade: "Era feliz a 99% e faltava-me 1%"

Joana Gomes, de 29 anos, coordena projetos de educação em três dos 12 campos de refugiados sudaneses na zona leste do Chade

Joana Gomes, de 29 anos, natural de Lisboa, decidiu trocar o certo pelo incerto e foi trabalhar com refugiados sudaneses da guerra no Darfur que vivem em campos da ONU no Chade

Joana Gomes era feliz a 99%. "Tinha tudo o que a sociedade diz que é o sonho de qualquer pessoa: contrato efetivo, carro, casa, dinheiro, família, amigos. Mas eu percebi que a felicidade está nos 100% e por isso decidi ir atrás do 1% que ainda me faltava", conta ao DN a jovem lisboeta de 29 anos, que há um ano trabalha no Chade para o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS).

Formada em Serviço Social e Recursos Humanos, pela Universidade Católica e pelo ISCTE, trabalhava como assistente social e coordenadora do gabinete de ação social do Colégio São João de Brito. Decidiu ir fazer voluntariado para a Sicília, em Itália, pois já antes tinha tido uma experiência no Brasil. "Fiquei num centro que era só para homens africanos. Muitos não falavam. Tinham depressão. Eram do Senegal, Malawi, Chade... Aquilo que se fala agora sobre a Líbia, já eles falavam em 2015. Os árabes não gostam dos pretos e eles lá na Líbia não podem ficar."

Voltou a Lisboa, quis despedir-se do trabalho que tinha. Não a deixaram e deram-lhe um ano sabático para voltar para a Sicília. No entretanto foi bater à porta da sede do JRS em Roma e disse que queria trabalhar com eles. Perguntaram-lhe onde e ela respondeu que estava disponível para ir para onde ninguém mais quisesse ir. Apresentaram-lhe a opção do Chade, avisando-a de que era perigoso. A resposta saiu-lhe prontamente: "Mais do que medo de morrer, tenho medo é de não viver."

Novamente voltou a casa para pedir a demissão. E desta vez não houve mesmo volta a dar. A 10 de janeiro de 2017, há um ano, estava a apanhar o avião para o Chade. País sem acesso ao mar, localizado no centro-norte de África, tem como presidente, há 27 anos, Idriss Déby e faz fronteira com países com situações muito difíceis, como por exemplo a República Centro-Africana, a Nigéria, o Sudão.

Joana vive em Goz Beida, a cerca de 1000 km de Djamena, cidade que é a capital do Chade. Aquela é a zona de fronteira com o Sudão, país de onde são oriundos os refugiados que vivem nos 12 campos geridos na zona pela ONU. Mais propriamente do Darfur, região do Oeste do Sudão onde, desde 2003, a guerra já fez cerca de 300 mil mortos e levou pelo menos 2,5 milhões de pessoas a fugirem de casa.

O JRS tem projetos nesses 12 campos de refugiados, sobretudo na área da educação. E Joana é responsável por três deles. "No campo de Djabal vivem 20 mil refugiados, no de Goz Amir, o segundo maior, vivem cerca de 33 mil e na aldeia de Kerfi entre mil e três mil", explica a jovem portuguesa, que sempre foi católica e que, além da avó, Nené, tem entre as suas figuras inspiradoras a Madre Teresa de Calcutá e Jesus Cristo. "Pensei em ser freira, mas rapidamente tive o discernimento de perceber que não precisava sê-lo para cumprir a minha missão e pôr os meus dons ao serviço dos outros."

No terreno, onde gosta de estar, Joana e a sua organização prestam assistência na construção de escolas, na formação de professores, na alfabetização de crianças e também de adultos, fazem sessões de esclarecimento sobre gestão menstrual e de higiene. "É um país muçulmano e ainda há muitos casamentos forçados e infantis. As raparigas não falam da menstruação nem de nada. É um tabu. Aparecem grávidas e não sabem."

Viver no Chade é uma aventura. É difícil ver que não há cadernos suficientes e as crianças escrevem na areia no chão. Internet, quando há, dá para atualizar a página de Facebook Trocar o Certo pelo Incerto. "O meu dia a dia é feito de imprevistos. Habituei-me a estar sempre a suar. Não tenho água canalizada em casa nem eletricidade 24 horas. Tenho um rato que vive lá", conta, rindo, confessando que, apesar de ter sido o melhor ano da sua vida, a certa altura pensou desistir.

"Perdi o centro. Mas depois fiz retiros espirituais da vida quotidiana e pensei no que é que me trouxe ali em primeiro lugar. Ser obrigada a viver na simplicidade ensinou-me a aceitar o pouco que se tem. Aprendi a viver com o essencial. Não sei se vou ficar ali para sempre [volta nesta quarta-feira dia 17]. Mas sinto que estou onde tenho de estar agora e que isso é o 100%." Que lições tem para transmitir? "Todos devemos procurar o nosso 1%. Todos temos o nosso Chade. E ele pode ser qualquer coisa."

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