Kirchner, Dilma, Maduro. Ocaso da esquerda latino-americana?

Ano negativo após década hegemónica com vitória de Macri na Argentina, impeachment em curso da presidente brasileira e conquista da oposição nas eleições venezuelanas

Após mais de 15 anos de hegemonia, a esquerda latino-americana enfrenta o seu maior desafio por causa da mudança do ciclo económico, da corrupção, da emergência de uma classe média com novas exigências políticas ou do cansaço com a perpetuação no poder. A argentina Cristina Kirchner, impossibilitada por lei de concorrer a um terceiro mandato, não conseguiu eleger o seu sucessor em novembro. No Brasil, Dilma Rousseff enfrenta um impeachment. E na Venezuela, depois de ter perdido as parlamentares em dezembro, o presidente Nicolás Maduro está debaixo de fogo. E agora?

"Um atrás do outro, os totens das esquerdas latino-americanas caem como peças de um dominó que avança implacável", escreveu o editor de internacional do El País, Andrea Rizzi, falando no "ocaso" das formações ditas progressistas da região. Mas o investigador Carlos Malamud, do Real Instituto Elcano, considera que "ainda falta muito" para falar nesse ocaso da esquerda e da emergência da direita. "É verdade que estamos numa mudança de ciclo económico, como consequência da queda do preço das matérias-primas, mas no caso político, penso que mais do que uma mudança de ciclo estamos numa mudança de conjuntura", disse ao DN.

"A mudança de ciclo económico leva a que os distintos governos tenham menores rendimentos com os quais financiar as suas políticas públicas, começando pelas políticas sociais", refere Malamud. Numa situação de emergência das novas classes médias, que considera "a grande conquista da década passada", surgem também novas exigências políticas. "Entre estas exigências há uma clara: a da luta contra a corrupção", lembra.

Ascensão e queda

Em 1999, a vitória de Hugo Chávez na Venezuela marcou o início da expansão da esquerda na América Latina. Dez anos depois, a revolução bolivariana chavista estava em curso e era exportada através da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba). No Brasil, Lula da Silva aproximava-se do final do segundo mandato e preparava a sucessora Dilma Rousseff. Na vizinha Argentina, Néstor Kirchner já passara a pasta à mulher, Cristina Kirchner. Na Nicarágua, 30 anos após liderar a revolução que derrubara a ditadura dos Somoza, o sandinista Daniel Ortega já voltara ao poder.

No Chile, a presidente Michelle Bachelet, alcançava valores recordes de popularidade no final do mandato. Na Bolívia, o índio aymara Evo Morales era reeleito com 65% dos votos. Rafael Correa fazia o mesmo no Equador, com 52%, já depois de ter mudado a Constituição. Em 2009, o Uruguai era presidido por Tabaré Vázquez e preparava-se para eleger José Mujica, um ex-guerrilheiro. Já El Salvador elegia Maurício Funes, da Frente de Libertação Farabundo Martí (ex-guerrilha).

Hoje o cenário é diferente. A vitória de Maurício Macri, na Argentina, marcou o fim de 12 anos de kirchnerismo. Na Venezuela, a vitória da oposição nas parlamentares precipitou a contestação a Maduro, que tenta escapar a um referendo revogatório. Na Bolívia, Morales perdeu a consulta popular que lhe permitiria concorrer a um novo mandato. E no Brasil, Dilma está suspensa.

No Peru, Ollanta Humala (que quando foi eleito em 2011 foi acusado de receber apoio de Chávez) optou por não se recandidatar. Amanhã, na segunda volta das presidenciais, a disputa faz-se à direita: entre Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori (detido por corrupção e violação dos direitos humanos) e Pedro Pablo Kuczynski.

"Estamos numa situação de mudança, de uma nova conjuntura política. O projeto hegemónico bolivariano perdeu a posição central no continente e a sua capacidade de incidência é menor. A Unasur é irrelevante e a Alba quase inexistente", explicou Malamud. "Depois da morte de Chávez [em 2013], nenhum líder latino-americano foi capaz de o substituir e as dificuldades económicas fazem com que o projeto tenha naufragado totalmente",disse.

Nem Cuba escapa, mais de meio século após a revolução. "De alguma maneira, a aproximação aos EUA responde à mesma dinâmica, à perceção por parte de Havana de que a crise venezuelana ia custar caro e que era melhor captar investimentos estrangeiros para sobreviver à crise", indicou ao DN.

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