"Kim quer ultrapassar barreiras que o regime não permitiu anteriormente"

O antigo embaixador português acredita que do encontro entre Trump e Kim resultará uma declaração de princípios que permita a ambos os líderes averbar um triunfo político.

Carlos Frota foi embaixador de Portugal na Coreia do Sul entre 2002 e 2006. Reformado da carreira de diplomata, Frota reside em Macau, onde foi o primeiro cônsul-geral de Portugal após a transição da administração do território para a China, entre 1999 e 2002. É a partir do sul da China que, como professor universitário e analista de política internacional, mantém um grande interesse pela questão coreana e por assuntos ligados à segurança internacional na zona Ásia-Pacífico.

E agora chegamos a este ponto: 2018 em que tivemos duas cimeiras intercoreanas e já esta terça-feira algo que até aqui era para muitos inimaginável - uma cimeira entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte. Como é que chegámos aqui?

Eu penso que há aqui dois fatores que não existiam nas anteriores situações de alguma reaproximação. Eles são: a psicologia diferente dos dois líderes, o norte-americano e o norte-coreano, e uma China que ganhou entretanto um peso enorme. Estamos aqui nas vésperas da cimeira de Singapura porque Donald Trump é o que é, fugindo a regras no que é convencionalmente a diplomacia internacional, e porque Kim Jong-un é quem é e porque é jovem e quer ultrapassar barreiras que o regime não permitiu anteriormente. E, por outro lado, porque a China tem capacidade para influenciar discretamente todo este processo.

A China, hoje, é uma grande potência que, por si só, pode garantir a abertura da Coreia do Norte e a promoção do desenvolvimento económico, tal como fez no território chinês.

Naturalmente que os Estados Unidos dizem que isto resulta de uma estratégia consistente de pressão internacional e de sanções que não deixaram outra opção a Kim Jong-un.

O fator sanções é naturalmente muito relevante, mas se nós olharmos para a história das sanções no passado, elas por si só não levaram à superação do status quo. Para analisar a situação temos de colocar o fator sanções a par de outros que já referi. As sanções são duras para o regime, mas o regime provou que se pode manter economicamente como se manteve durante décadas. E mais: com os custos adicionais de um programa de capacitação nuclear que, como se imagina, não é barato. Portanto, eu acho que as sanções têm de ser complementadas em termos de análise por todos os fatores que entretanto se alteraram na situação referente à península coreana.

Falava da China, um ator central. Tivemos duas cimeiras entre Xi Jinping e Kim Jong-un na China em poucas semanas. Que tipo de articulação existirá entre Pequim e Pyongyang?

Uma articulação muito estreita. Porque a China está a lidar com uma situação internacional de um território contíguo às suas fronteiras, e relativamente ao qual tem sérias preocupações de estabilidade. Nós que seguimos este dossiê há algumas décadas, sabemos que na China existe uma preocupação legítima para que nas suas fronteiras haja estabilidade. Por outro lado, permita-se-me alguma especulação ao dizer o seguinte: a China conhece a vida internacional como a Coreia do Norte não conhece. A diplomacia chinesa tem uma acumulação de saber que a diplomacia norte-coreana seguramente não tem.

Realisticamente o que podemos esperar desta cimeira entre Donald Trump e Jong-un?

Uma declaração de princípios que vão consagrar um processo longo de desnuclearização de modo a que, quer um líder quer outro, possam averbar uma vitória política. Um dizendo que conseguiu o máximo da história - como é bem o estilo de Donald Trump - e outro, o norte-coreano, dizendo que não cedeu em nada que fosse essencial. Portanto, a partir dessas interpretações contraditórias, o que é que nós temos para aferir realmente o sucesso da cimeira? É o processo de verificação da irreversibilidade de uma decisão de desnuclearização. E aqui nós, os que temos memória, os analistas, os jornalistas, os académicos, temos de comparar aquilo que for consagrado na cimeira de Singapura com aquilo que foi conseguido, por exemplo, no tempo de Bill Clinton e do acordo-quadro em 1994.

O que é que poderá ser diferente agora?

O que será diferente naturalmente é a capacidade da Agência Internacional de Energia Atómica de estar numa posição de total e permanente verificação daquilo que for feito no plano nuclear na Coreia do Norte, porque o elemento aqui é de confiança, mas também de verificação internacional. E se esse mecanismo for conseguido, podemos dizer que pode ser dado aqui um primeiro passo - algo contrário à expectativa quase maximalista de Trump que iria determinar uma quase rendição da Coreia do Norte - para que a questão seja solucionada. O bem-sucedido aqui tem uma ambição modesta que é a de um princípio de processo com garantias adicionais de verificação. O que, dado o diferente contexto internacional, pode funcionar.

Plataforma/Diário de Notícias

Diretor do jornal Plataforma Macau

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