Kenny assume derrota da sua coligação mas vai tentar formar governo

País mergulha em crise política semelhante à portuguesa e à espanhola depois das primeiras legislativas do pós-resgate da troika

O primeiro-ministro irlandês admitiu a derrota da coligação no poder nas legislativas de sexta-feira, mas mesmo assim afirmou que vai tentar formar um executivo. "O governo do Fine Gael e do Labour não pode ser reconduzido. Tenho o dever e a responsabilidade de trabalhar com a decisão do povo e dar ao país um governo estável. E é isso que pretendo fazer", garantiu Enda Kenny no sábado à noite, em declarações aos jornalistas.

Os resultados finais e oficiais ainda não foram divulgados, por causa da complexidade do sistema eleitoral do voto único transferível, mas as sondagens à boca das urnas divulgadas na sexta-feira à noite revelaram que os irlandeses decidiram castigar a coligação entre conservadores e trabalhistas. Foram estes os partidos que executaram o programa de resgate da troika e a austeridade a ele associada.

Apesar do mau resultado, o Fine Gael, de Enda Kenny, permanece o partido mais votado, tendo recolhido entre 24,8% e 26,1%. Em segundo lugar ficou o Fianna Fáil, partido de centro-esquerda que pediu o resgate no final de 2010, quando estava no poder, com entre 21,1% e 22,9%. Na terceira posição surgem os trabalhistas do Labour com 7,1% a 7,8%. Com o dobro do resultado obtido em 2011 aparece o Sinn Féin, que terá conseguido entre 14,9% e 16%.

Perante estes dados que apontam para um resultado inconclusivo, os líderes do Fine Gael e do Fianna Fáil, respetivamente, Enda Kenny e Micheál Martin, parecem preferir esperar pelos números oficiais para dar mais pistas sobre o que pretendem fazer. Nomeadamente se admitem negociar uma grande coligação para governar. Uma aliança entre os herdeiros da guerra civil na Irlanda de 1922 e 1923 seria algo inédito no país.

Ambos os lados admitem também que será difícil uma solução antes da sessão inaugural do Parlamento no dia 10 de março. Isso deixa os irlandeses mergulhados numa crise política semelhante às de Portugal e Espanha. Precisamente aquilo que Kenny disse que queria evitar quando apelou ao voto na atual coligação. O segundo país do euro a pedir o resgate da troika, em 2010, depois da Grécia e antes de Portugal, a Irlanda beneficiou de empréstimos de 67,5 mil milhões de euros. Três anos depois, em dezembro 2013, foi o primeiro a sair do resgate.

Nos dois partidos já há, porém, várias vozes a comentar a hipótese de uma grande coligação. "Acho que não vai acontecer. Não acho que o Fianna Fáil vá entrar numa coligação com o Fine Gael como partido minoritário", declarou ontem à Reuters Eoghan Murphy, deputado do Fine Gael. "Se alinhássemos com o Fine Gael teria de haver uma viragem sísmica na forma como tratam grande parte da sociedade", afirmou John Connolly, conselheiro da cidade de Galway e membro do Fianna Fáil.

CONHEÇA O LÉXICO DA POLÍTICA IRLANDESA:

Taoiseach

Este é o termo em gaélico para o cargo de primeiro-ministro da Irlanda. O vice-primeiro-ministro irlandês é designado de Tánaiste.

Dail Éireann

É o nome dado à câmara baixa do Parlamento. Em gaélico este é o Oireachtas e, além do Dail Éireann (que conta com 166 deputados, ou Teachta Dála), é formado pelo Seanad Éireann (Senado).

Fine Gael

Partido conservador, que é atualmente liderado pelo primeiro-ministro, Enda Kenny. Foi fundado como tal a 8 de setembro de 1933. O nome em gaélico significa "Família" ou "Tribo dos Irlandeses".

Fianna Fáil

De centro-esquerda, este partido tem dominado durante muitos anos a vida política da Irlanda. Desde 2011, tem estado na oposição. Foi fundado a 23 de março de 1926 e o nome em gaélico significa "Partido Republicano" ou "Soldados da Irlanda".

Sinn Féin

Um dos partidos mais antigos da Irlanda, que foi fundado em 1905, o seu nome em gaélico quer dizer "Nós Mesmos". Na Irlanda do Norte estava ligado aos paramilitares do IRA.

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