"Juiz Moro vale-se da toga para impor posições políticas"

Entrevista a Guilherme Boulos, candidato do PSOL às presidenciais do Brasil

Candidato presidencial do Partido Socialista e liberdade (PSOL), Guilherme Boulos foi elogiado pelo ex-presidente Lula da Silva antes da detenção. Esteve em Lisboa para defender a "frente democrática" pela libertação de Lula, criticando na entrevista ao DN o juiz Sergio Moro e lembrando Marielle Castro, assassinada há um mês.

Esteve ao lado do ex-presidente Lula da Silva antes da detenção. Acredita que ainda será possível ser candidato?

Defendemos o direito de Lula ser candidato porque ele sofreu uma condenação injusta, sem provas, ao mesmo tempo em que uma série de políticos brasileiros, a começar pelo próprio Michel Temer, contra quem existem enormes provas, não são condenados. Estão a exercer a política, a conduzir o país. A condenação do Lula resulta do poder judiciário assumir um papel de partido político, que mostra a politização da justiça brasileira. E isso é muito grave. Não é apenas uma questão do Lula e do PT. É uma questão que atinge toda a esquerda e a própria democracia brasileira. Por isso, a luta pelo Lula ser libertado e ter o direito de ser candidato é uma batalha democrática. Eu sou pré-candidato a presidente pelo PSOL, tenho diferenças com as posições do PT, mas entendemos que não entrar nessa batalha é ser conivente com a injustiça.

Lula elogiou-o na véspera de ser preso. Isso significa que você terá o apoio dele, caso não possa ser candidato?

Não queremos relacionar a unidade democrática que existe pela liberdade do Lula contra a escalada de violência política no país, a mesma que matou Marielle, com algo eleitoral. O caminho agora é de uma unidade muito ampla. Existem várias candidaturas e projetos diferentes no campo da esquerda. Isso é legítimo. Neste momento precisamos estar todos nas mesmas fileiras para defender a democracia brasileira que está em risco. A própria realização de eleições livres e democráticas está em xeque. Acreditamos que a frente que precisa ser formada nesse momento, e é o que eu vim fazer aqui em Lisboa, buscando apoio internacional para essa campanha, não é uma frente eleitoral, é uma frente democrática. Em duas semanas estarei na França e na Inglaterra, outras pessoas da esquerda brasileira também têm feito esse trabalho de denúncia. É um momento em que precisamos de amplo apoio internacional.

Não é o momento para uma candidatura única à esquerda?

Não. É evidente que fazer debate programático é necessário. A esquerda precisa discutir quais são os seus pontos em comum. Qualquer unidade, tem que ser em torno de programa, não pode ser uma unidade imposta. Tem que ser construída em torno de acordos programáticos. Esse debate ainda não está maduro na esquerda brasileira, neste momento ainda não está maduro, não quer dizer que não venha a ocorrer no futuro. O que está hoje em causa é a construção dessa frente da democracia.

Essa falta de acordo na esquerda não favorece a direita nas eleições?

O cenário eleitoral brasileiro está muito fragmentado dos dois lados. A direita tem mais de dez candidatos nesse momento. Há muita indefinição. Eu diria que essa é a eleição mais incerta e indefinida dos últimos 30 anos. Desde 1989 nós não tínhamos uma eleição tão imprevisível, tão fragmentada. Nós temos dois desafios neste processo eleitoral. O primeiro é que a esquerda consiga se juntar naquilo que ela tem em comum, que é a frente democrática, diante de riscos de um momento tão grave no Brasil. Vivemos a maior crise democrática desde o fim da ditadura militar. O segundo desafio é que a esquerda também precisa apresentar um projeto que seja capaz de resgatar a esperança do povo brasileiro. Vivemos um momento de apatia, de descrença nas saídas políticas, de crise de representação profunda. Há um verdadeiro abismo entre Brasília e o Brasil de verdade, o Brasil real. O projeto que a esquerda precisa apresentar é um projeto que tem que ser capaz de fazer enfrentamentos com os privilégios, com o sistema político brasileiro, e dialogar com um sentimento difuso da população de insatisfação e rejeição com a política.

Consideram Lula um preso político, mas há indícios de corrupção...

Nós defendemos que se há corrupção tem que haver punição. Nós não somos lenientes com a corrupção. Corrupção, inclusivamente é, é a forma como historicamente o grande poder económico se apropriou do orçamento público. Para quem quer transformar a sociedade, a corrupção é inadmissível. Agora, a constituição assegura o direito de ampla defesa, como deve ser em qualquer estado de direito, e respeito a todas as garantias constitucionais. No caso do julgamento do Lula não houve nada disso. Não houve uma única prova. Contra o Michel Temer, por exemplo, há gravações dele cometendo ilegalidades, o seu principal assessor foi apanhado com uma mala de dinheiro, e ele está no Palácio do Planalto. Contra o Aécio Neves,que foi candidato pelo PSDB na última eleição, há gravações dele pedindo milhões de reais a um empresário e a dizer que mataria um primo dele antes de delatar. E ele está no Senado. Contra Lula não há uma gravação, não há uma mala de dinheiro, não há uma prova. E ele foi condenado e está preso. Se isso não é um julgamento político, não sei mais o que é. A justiça brasileira extrapolou o seu papel. O juiz tem que julgar, com isenção. Quando o juiz se comporta como chefe de partido político não dá para falar em justiça. Por isso dizemos com convicção que Lula é um preso político. A sua prisão e condenação têm a ver com interesse de o tirar do processo eleitoral. O que está em jogo é a defesa da democracia, porque não pára no Lula, não pára no PT.

É como se houvesse duas justiças?

Não há um único grande dirigente do PSDB preso no Brasil, na Operação Lava-Jato. Aliás, quinta-feira o Superior Tribunal de Justiça livrou o ex-governador Geraldo Alckmin, candidato a presidente da direita, das investigações. É um escândalo, é um escárnio. A tal ponto de que chegaram a fazer brincadeiras no Brasil de que para o Lula não ser preso bastava filiar-se no PSDB.

Qual é o interesse do juiz Sergio Moro?

O Lula disse que o Sergio Moro tem uma mente doentia. Acredito que, para além de uma mente doentia, tem interesses políticos. Não me parece que ele aja sozinho, acho que ele está ligado a forças políticas e económicas. Não me parece razoável que um juiz de primeira instância faça tudo o que ele fez do ponto de vista de arbitrariedade - vazamentos para a imprensa que são proibidos, divulgou uma gravação da presidente Dilma com o Lula de forma absolutamente ilegal, sem receber uma única punição. Qualquer juiz de primeira instância que fizesse um terço do que ele fez teria sido cassado pelo Conselho Nacional de Justiça no Brasil. Alguém que faz arbitrariedades sem se preocupar com punições é alguém que se sente respaldado politicamente. Não vou ser leviano a dizer quais forças políticas dão respaldo ao Sergio Moro, não vou fazer como ele que julga sem provas e condena sem provas, mas é muito razoável supor que ele faz parte de uma articulação política mais ampla no Brasil.

Está a dizer que no futuro vamos vê-lo candidato?

Ele chegou a aparecer em sondagens eleitorais. Não sei por que razão não saiu candidato, talvez porque seria uma coisa tão escandalosa que, como diz a Lady Macbeth, nem com todos os perfumes da Arábia o deixaria cheiroso. Mas acho que não é de se descartar que o Sergio Moro venha a ser candidato a algum cargo, porque ele já faz política. Há muito tempo. Sérgio Moro é um ator político no Brasil que se vale da toga e da posição de juiz para impor posições políticas. Se isso vai se desdobrar num projeto eleitoral ou não o tempo vai dizer.

Falou de Marielle Castro. É um crime que vai marcar para sempre o Brasil ou as pessoas acabarão por esquecer?

O caso da Marielle foi muito marcante, pela forma bárbara como foi conduzido. Foi um assassinato político. A Marielle era uma das lideranças políticas mais combativas, mais promissoras do Rio de Janeiro, uma mulher negra vinda da favela. Ela representava vozes a que a política brasileira, em geral, fecha a porta na cara. Nós vamos continuar a exigir justiça por Marielle. Amanhã [hoje] completa um mês do assasinato e estarei no Rio de Janeiro num ato importante. É uma homenagem que podemos fazer para ela, levar adiante as ideias pelas quais viveu. O que temos que mostrar neste processo de resistência e de memória em relação à Marielle é que as ideias são à prova de bala. Assim como não se matam ideias, não se prendem ideias. Vamos continuar nas ruas. Eu acredito que a comoção que se gerou no povo brasileiro não vai permitir que seja mais um caso sem solução.

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