McCain: carta de despedida com recado a Trump e elogio a Obama

Senador norte-americano morreu no sábado com um cancro no cérebro mas deixou uma mensagem para ser divulgada a título póstumo em que condena "rivalidades tribais" que semeiam "ódio em todos os cantos do mundo" naquela que está a ser vista com uma crítica ao atual presidente

John McCain deixou, para ser divulgada, uma carta de despedida aos americanos. O senador, que morreu sábado aos 81 anos com um cancro no cérebro, começa por revelar-se um homem de sorte. "Vivi aventuras, experiências, e amizades suficientes para preencher dez vidas satisfatórias de felicidade".

Revelando que viveu e morreu como "um americano orgulhoso", McCain explica que se dirige "aos cidadãos da maior república do planeta".

Mais à frente falou de sentimentos negativos numa passagem que está a ser vista pelos analistas políticos como uma crítica velada a Donald Trump, que revelou a sua ausência no funeral. "Nós enfraquecemos a nossa grandeza quando confundimos o nosso patriotismo com rivalidades tribais que semeiam ressentimento, ódio e violência em todos os cantos do planeta. Nós enfraquecemo-nos quando nos escondemos atrás de muros, em vez de derrubá-los, quando duvidamos do poder dos nossos ideais, em vez de confiar que eles são a grande força de mudança que sempre foram. Somos 325 milhões de indivíduos com opinião. Discutimos e competimos e, às vezes, criticamo-nos mutuamente nos nossos sonoros debates públicos. Mas sempre foi mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa."



Em 2008, Barack Obama venceu as eleições presidenciais a John McCain. Percebe-se que até à morte do senador existiu um enorme respeito entre os dois homens. E percebe-se pela referência de McCain a Obama na sua carta de despedida: "Há dez anos tive o privilégio de admitir que perdi nas eleições presidenciais. Quero despedir-me de si relatando a sincera fé que senti poderosamente nos americanos naquela noite. Eu ainda hoje sinto essa força e esse poder sinto isso poderosamente ainda."

Por fim, um pedido em jeito de adeus definitivo aos compatriotas: "Não desesperem com as atuais dificuldades, acreditem sempre na promessa e grandeza da América, porque nada é inevitável. Os americanos nunca desistem. Nós nunca nos rendemos. Nós nunca nos escondemos da história. Nós fazemos história. Adeus, companheiros americanos. Deus vos abençoe e Deus abençoe a América."

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