Jerusalém, tempos mais sombrios e a ira muçulmana

UE teme o descontrolo no Médio Oriente face ao anúncio de Trump. Hoje é "dia de raiva" e a intifada está aí à porta. Conselho de Segurança da ONU reúne-se de emergência

Continuaram ontem a propagar-se as ondas de choque do reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e o anúncio da mudança da embaixada dos Estados Unidos para aquela cidade por parte do presidente, Donald Trump. Milhares de pessoas saíram às ruas, da Tunísia ao Paquistão, em fúria, enquanto diplomatas e líderes políticos e religiosos insistiram na condenação do propósito da Casa Branca. "Pode atirar-nos de volta para tempos ainda mais sombrios do que aqueles que já vivemos", comentou a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini.

Em Bruxelas, a dirigente italiana reafirmou a vontade unívoca da União Europeia na solução dos dois Estados, tendo Jerusalém como capital partilhada. Mogherini informou ainda que recebeu "fortes garantias" de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, em como iria conter reações violentas na região. Abbas respondeu a Trump ao chamar Jerusalém "a eterna capital da Palestina" e tendo descartado os Estados Unidos como mediadores do processo de paz israelo-palestiniano.

Mas nem todos pensam como Abbas. Ismail Haniyeh, o líder do Hamas, grupo islamista que controla Gaza, apelou para uma nova intifada, isto é, uma revolta "contra o inimigo sionista". Para hoje está marcado um "dia de raiva" perante o anúncio de Trump. Ontem, um pouco por toda a Cisjordânia e em Gaza registaram-se confrontos com as forças de segurança israelitas, tendo estes ferido 31 pessoas com armas de fogo.

O grupo xiita Hezbollah, com base no Líbano, também apelou à intifada, "para um aumento da resistência" perante a "enorme injustiça histórica" do reconhecimento norte-americano e também para o abandono das negociações - que estão congeladas desde 2014. Sayyed Hassan Nasrallah, o líder do movimento apoiado pelo Irão, convocou uma manifestação para segunda-feira em Beirute. Em 2006, Hezbollah e Israel estiveram em guerra.

Com o Médio Oriente em ebulição, as atenções viram-se para o Cairo e para Nova Iorque. Na cidade norte-americana, é dia de o Conselho de Segurança das Nações Unidas se reunir para analisar o tema. O encontro foi pedido por França, Itália, Reino Unido, Suécia, Uruguai, Bolívia, Egito e Senegal.

Na capital egípcia aguarda-se pelo sermão de hoje do imã da Mesquita de Al-Azhar, o xeque Ahmed al-Tayeb. Que, ao receber ontem Tony Blair, já advertiu dos perigos para a paz mundial caso outros países sigam os Estados Unidos da América.

Alheio às controvérsias, o governante israelita garantiu, numa conferência, que outros países imitarão os Estados Unidos. "Estamos em contacto com outros países que irão fazer um reconhecimento similar, e não tenho dúvidas de que assim que a embaixada dos Estados Unidos se transfira para Jerusalém, e até antes, mais embaixadas vão mudar-se." Os media israelitas dão como certo o interesse das Filipinas e da República Checa em seguir os passos dos Estados Unidos.

Em editorial, o diário israelita Haaretz defende que Trump "deu um valioso presente político ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que se debate com investigações de corrupção contra ele e que tenta manter a estabilidade da coligação governamental, liderada pelo partido Habayit Hayehudi, chefiado por Naftali Bennett".

Como se explica a jogada do presidente norte-americano, quando esta está longe de ser consensual inclusive na administração? Para o jornalista do The New York Times Thomas Friedman, Donald Trump "não se vê como presidente dos Estados Unidos, mas como presidente das suas bases. Como este é o único apoio que lhe resta, sente a necessidade de alimentá-lo, mantendo as promessas grosseiras e mal urdidas feitas durante a campanha", sustenta.

Donald Trump vê o "pacto com a sua base como sacrossanto", afirma por sua vez Larry Sabato, professor de Ciência Política da Universidade da Virgínia, à AFP, lembrando que o seu núcleo duro "adora tudo o que ele faz".

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