Já havia rasputines na Casa Branca muito antes de Steve Bannon

Louis Howe foi primeiro conselheiro a ganhar tal influência junto do presidente Roosevelt. Rove foi o expoente com Bush filho.

Supremacista branco, racista, antissemita foram apenas algumas das coisas que os críticos acusaram Steve Bannon de ser quando Donald Trump o nomeou estratega principal da Casa Branca. E não faltou entre os democratas quem descrevesse o cofundador do site de notícias Breitbart News como "um Karl Rove a tomar esteroides". A influência tanto de Bannon como de Rove, eminência parda de George W. Bush chamado pelo próprio "o arquiteto", valeram-lhes a alcunha de Rasputine na Casa Branca.

E não são os únicos. O cargo de estratega principal - um misto de "conselheiro, confidente e criador de verdades", numa definição do New York Times - é uma invenção relativamente recente, tendo surgido nos tempos de Franklin Roosevelt. De acordo com o historiador político Michael Beschloss, o pioneiro nessa função terá sido Louis Howe. O antigo jornalista do New York Herald conheceu Roosevelt quando este era um jovem senador ao qual fez uma entrevista. Os dois homens tornaram-se amigos e quando Roosevelt ficou doente com febre tifoide, em 1918, contratou Howe para fazer campanha por ele para o Senado. Ganhou, iniciando uma colaboração que duraria até à morte de Howe, em 1936.

Quando Roosevelt foi diagnosticado com poliomielite, o antigo jornalista ficou ao seu lado, não só encorajando-o a manter a carreira política como até escrevendo cartas em seu nome à imprensa garantindo que o ex-senador não sofreria efeitos permanentes da doença. Por detrás da bem-sucedida campanha de Roosevelt para governador de Nova Iorque e, mais tarde, para a presidência, Howe foi presenteado com o cargo de secretário do presidente, algo semelhante ao atual chefe de gabinete. Apelidado de A Sombra do presidente, o conselheiro vivia na Casa Branca, ocupando o Lincoln Bedroom. No livro FDR"s Shadow: Louis Howe, The Force that Shaped Franklin and Eleanor Roosevelt, Julie Fenster conta como o próprio gostava de se apresentar como o "zé-ninguém" da administração e chegou a ter cartões-de-visita com as alcunhas todas que lhe davam, inclusive Rasputine, como o místico que tanto influenciou Nicolau II, o último czar da Rússia. Isto apesar de lhe caberem tarefas tão importantes como travar alguns entusiasmos do presidente e evitar que algumas propostas sequer lhe chegassem.

Se Howe foi o primeiro a desempenhar o papel de grande estratega da presidência, seria preciso esperar até Richard Nixon chegar à Casa Branca, em 1969, para que, ainda segundo o historiador Michael Beschloss, este fosse oficializado. E foram dois os homens que se tornaram a consciência da Casa Branca de Nixon: John Ehrlichman e H.R. Haldeman. O primeiro foi um dos grandes responsáveis pela política interna da administração republicana. O segundo traçou o plano para recuperar a imagem de Nixon após o desaire da campanha presidencial de 1960, que perdeu para o jovem e bem-parecido John F. Kennedy. Ambos os conselheiros acabariam por cumprir vários meses de prisão após a demissão de Nixon, em 1974, devido ao seu papel no encobrimento do escândalo do Watergate. Em 1972, em plena campanha para as presidenciais, os escritórios do Partido Democrata no edifício Watergate, em Washington, foram assaltados. Mais tarde veio a saber-se que o presidente Nixon tinha conhecimento das escutas colocadas na campanha democrata e este, alvo de um processo de destituição, acabou por abandonar o cargo. Nixon viria a ser amnistiado pelo sucessor, Gerald Ford, mas tanto Ehrlichman como Haldeman não escaparam à justiça.

Karl Rove era conhecido como o cérebro de Bush

Mais recentemente, também não faltam exemplos de conselheiros cuja influência sobre o presidente excede largamente a importância do seu cargo. Bill Clinton chegou à Casa Branca muito graças à estratégia de James Carville - autor da famosa frase "É a economia, estúpido!" -, mas se este não chegou a integrar a sua equipa presidencial, o mesmo não se pode dizer de George Stephanopoulos. O agora apresentador do programa This Week, da ABC, transitou da campanha para o cargo de diretor de comunicações da Casa Branca. Nas suas memórias - All Too Human: a Political Education -, Stephanopoulos confessou ter sofrido de depressão nos tempos na Casa Branca, devido à responsabilidade de transmitir a mensagem do presidente. Mas mais do que Carville ou Stephanopoulos, na Casa Branca de Clinton o papel de Rasputine pertencia a Dick Morris. Amigo do presidente desde os tempos deste como governador do Arkansas, Morris foi chamado para ajudar Clinton a lidar com um Congresso de maioria republicana após as eleições intercalares de 1994. O agora colunista do New York Post esteve por detrás das políticas mais moderadas da administração democrata, mas acabou por ter de se demitir em 1996 depois de um escândalo com uma prostituta.

Louis Howe, conselheiro de Franklin Roosevelt, é considerado o primeiro dos rasputines da Casa Branca

Mas se Morris era influente junto de Clinton, Karl Rove era-o muito mais junto de George W. Bush. Conhecido como o cérebro de Bush, o estratega foi o homem por detrás de todas as suas vitórias - da campanha para governador do Texas à que o levou até à Casa Branca, da qual foi "o arquiteto", nas palavras do candidato. De tal forma que Rove se tornou o pior pesadelo dos democratas. E a sua fama atravessou o Atlântico. Em 2006, o britânico The Guardian escrevia sobre o estratega de Bush que foi "mais longe do que qualquer um dos antecessores ao usar os poderes da Casa Branca para fins eleitorais", lembrando que não só Rove pôs Bush na presidência, como ajudou a eleger muitos outros republicanos.

Os seus métodos valeram-lhe a má fama, não hesitando em recorrer a anúncios nefastos e em acusar o adversário das próprias fraquezas. Também muito dependente do veterano vice-presidente Dick Cheney - que numa recente entrevista Steve Bannon colocou no eixo do poder com "Darth Vader e Satã" -, Bush terminou o segundo mandato já sem Rove ao lado, depois de este ter pedido a demissão em 2007.

Menos sinistro do que Rove, David Axelrod foi o homem que ajudou Barack Obama a derrotar a máquina de campanha dos Clinton e bater Hillary nas primárias democratas e depois a levar a mensagem de mudança do jovem senador até à Casa Branca, apostando na proximidade com o eleitor. Famoso pelo bigode, o conselheiro do presidente foi o responsável pela transição da plataforma de campanha para a agenda da administração.

Depois de deixar a Casa Branca, Axelrod mudou de visual e, já sem bigode, usou a sua arte nas campanhas de políticos europeus como Mario Monti em Itália ou Ed Miliband no Reino Unido. Recentemente, o homem que o New York Times descreveu como "o protetor da marca Obama" desvalorizou o papel de Steve Bannon na administração Trump, recordando que não sendo chefe de gabinete, este "não controla as contratações e as decisões administrativas" do executivo.

Capa da última revista Time - com o título "O grande manipulador" -, Bannon e a sua proximidade ao alt-right, a extrema-direita americana, foram alvo de todas as críticas quando Trump o escolheu para estratega principal da Casa Branca e, pouco depois, lhe deu um lugar no Conselho de Segurança Nacional. E desde então multiplicam-se as insinuações de que será ele a verdadeiramente força por detrás do presidente. Uma posição que, de acordo com o artigo da revista The New Yorker, já terá gerado tensões com o chefe de gabinete, Reince Priebus, um homem do aparelho do partido republicano.

Indiferente à polémica que causou, Bannon mantém o silêncio. Já Trump tuitou: "Eu é que mando!"

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