O barranquenho uma "língua de contacto"?

Investigadores afirmam que o estudo segue uma abordagem partindo da perspetiva das línguas de contacto

A catedrática María Victoria Sánchez-Élez, da Universidade Complutuense de Madrid, defende que o barranquenho, dialeto circunscrito à região baixo-alentejana do concelho de Barrancos, é uma língua, definindo-se como "fala de contacto entre o português e o espanhol".

A autora faz esta afirmação na sua obra "O Barranquenho. Língua. Cultura. Tradição", em que apresenta o resultado de anos de investigação, na qual faz uma análise sociolinguística em que demonstra a relação que existe entre fatores linguísticos e fatores sociais, nos falantes do barranquenho.

Na nota de apresentação do livro, os investigadores Gabriela Vitorino e João Saramago, do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, afirmam que este é "um trabalho pioneiro", que foi inicialmente dirigido por Lindley Cintra (1925-1991), referindo que graças ao trabalho de investigação da catedrática espanhola, "esta fala, entre dois países ibéricos, tem sido de novo reconhecida nos meios científicos universitários internacionais", e sublinham o interesse de investigadores espanhóis, brasileiros, uruguaios e galegos.

O estudo, publicado pelas Edições Colibri, segue uma abordagem partindo da perspetiva das línguas de contacto, afirmam os investigadores, expondo questões de morfologia, sintaxe e contextualização, "sem deixar de lado uma triagem do léxico de Barrancos".

"Estuda-se o barranquenho em si mesmo como resultado do contacto linguístico entre o português (variedade alentejana) e o espanhol (variedade extremanha e andaluza), e também desde uma perspetiva tendo em conta o sexo, o grau de formação e a idade", explica Sánchez-Élez.

O barranquenho, explica a linguista, "não é uma língua homogénea, por apresentar fenómenos de variação, que estão submetidos a regras não-arbitrárias".

A autora dedica um capítulo à literatura oral e tradicional, que inclui romances, contos, canções, música e anedotas, que "permanecem vivos na realidade barranquenha", atesta.

Quanto à obra, María Victoria Sánchez-Élez afirma que se "reelaborou toda a pesquisa já editada", e incluíram-se três textos inéditos, entre os quais "Testemunhos de Música Popular: O Bibo".

María Victoria Sánchez-Élez, de 69 anos, é catedrática na Faculdade de Filologia da Universidade Complutense de Madrid e colabora com o Grupo de Dialectologia & Diacronia no centro de Linguística da Universidade de Lisboa.

Entre outras obras, é autora de "Pastotil Castelhano. Vicente" (1989), "Romancero y Cancionero de Los Navalmorales" (2002) e "El Barranqueño. Un modelo de lenguas en contacto" (2011).

Os investigadores Gabriela Vitorino e João Saramago apontam esta obra da catedrática espanhola como "um trabalho pioneiro" e "fundamental para o conhecimento do barranquenho", que "servirá de modelo para outros estudos de línguas em contacto".

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