Independentismo catalão quer mostrar força na Diada do Sim

Em vez de uma rua, a ideia é encher duas e formar uma enorme cruz humana em defesa do direito a decidir no referendo de 1 de outubro que o Tribunal Constitucional suspendeu

Em 2010, o Tribunal Constitucional espanhol obrigou a retirar, entre outras coisas, a referência de "nação" do Estatuto de Autonomia da Catalunha. Nesse ano, 1,1 milhões de catalães saíram à rua na Diada. Desde 1977, quando 1,2 milhões de pessoas tinham desfilado por Barcelona na primeira grande demonstração de catalanismo desde a morte de Franco, que não se via uma multidão tão grande nas ruas por ocasião do Dia Nacional da Catalunha. Um dia em que, na realidade, se assinala a capitulação de Barcelona em 1714 face aos Borbón, durante a Guerra da Sucessão, e consequente abolição das instituições catalãs. Hoje, os independentistas esperam encher não uma mas duas ruas da cidade, formando uma enorme cruz humana na Diada do Sim, em defesa do direito a decidir.

"Encheremos o Passeig de Gràcia e a Rua de Aragón de Barcelona para fazer uma enorme cruz, símbolo de todas as oportunidades do novo estado em forma de república que nos espera nos boletins do referendo. Entre todos, vamos converter a Diada do Sim num tsunami de ilusão que nos levará desde o compromisso com a democracia à maioria pela independência a 1 de outubro", dizem os organizadores das associações Assembleia Nacional Catalã e Òmnium Cultural.

A Diada deste ano surge em plena crise política entre o governo catalão e o governo de Madrid por causa da convocação do referendo independentista de 1 de outubro, suspenso pelo Tribunal Constitucional. Uma decisão que o presidente da Generalitat (governo catalão), Carles Puigdemont, não aceita, prometendo realizar a consulta como previsto, mesmo sem o aval de Madrid. "Desta Diada sairá uma mensagem muito clara, a de que não importa o que dizem os tribunais do Estado espanhol, se um povo quer votar isto é democracia, e visto que aqueles que queremos votar somos maioria, vamos fazê-lo", disse Puigdemont.

Desde a Diada de 2010 que só houve um ano em que a mobilização foi inferior a um milhão de pessoas (2015), tendo o recorde sido alcançado em 2014 (1,8 milhões de pessoas), dois meses antes da consulta popular de 9 de novembro. Dos 2,3 milhões de votos, 1,85 milhões votaram pela independência. Atualmente, há sondagens para todos os gostos: a da própria Generalitat (Barómetro de Opinião Política, que remonta a junho) mostra que 41,7% querem que a Catalunha devia ser um Estado independente (três meses antes eram 44,3%), frente a 49,5% que não querem.

Mas outra sondagem, do Instituto Sociometrica para o El Español, divulgada na semana passada antes de o referendo ser suspenso pelo Tribunal Constitucional, dizia que metade dos catalães iria votar no referendo e que 72% votariam "sim". Ontem, o El País divulgava uma sondagem Metroscopia, segundo a qual 56% dos catalães consideram que o referendo, nos moldes em que está a ser apresentado, não pode ser considerado válido nem legal.

Em julho, o governo catalão pediu um estudo a quatro peritos internacionais precisamente sobre a legalidade ou não do referendo. "A iniciativa de realizar um referendo com validade jurídica, por iniciativa do governo catalão, não é ilegal aos olhos da lei internacional e europeia. É ilegal, sim, aos olhos da Constituição espanhola, que não permite, não autoriza que os governos regionais possam pôr em causa a união do Estado espanhol", explicou ao DN a professora Sandrina Antunes, da Universidade do Minho, que participou no estudo.

A politóloga contou que o seu contributo passou por demonstrar que há uma "legitimidade política" da parte do governo catalão para defender o "direito a decidir" e optar pelo referendo, mostrando que este tema não surge de um dia para o outro, é antes o "agravar de uma situação" que começou precisamente na decisão do Tribunal Constitucional de 2010 em relação ao Estatuto. "A visão do governo catalão é que não tem havido colaboração nem abertura para negociar por parte do governo central", disse.

Indicando que do ponto de vista da União Europeia "não pode haver intervenção sobre qualquer questão de autodeterminação regional que aconteça dentro de um Estado soberano", Sandrina Antunes lembra, contudo, que a mesma União Europeia "consagra determinados direitos aos cidadãos europeus" e "tem a obrigação de garantir e assegurar esses mesmos direitos". A professora defende, por isso, que a União Europeia devia tomar uma posição, até porque o governo catalão "não descarta a hipótese de declarar unilateralmente a sua independência" e isso "seria uma situação de não retorno e muito complicada de gerir internamente".

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