Iglesias critica Sánchez: "Levou 24 horas a esquecer quem o ajudou"

Secretário-geral do Podemos não disfarça mal-estar pelo facto de o novo primeiro-ministro ter optado por um governo minoritário do PSOE. Iglesias lembrou a Sánchez que quem o ajudou a derrotar Mariano Rajoy foi o seu partido, não o Ciudadanos ou o PP

Não há apoios grátis. Foi isso que esta quinta-feira fez questão de lembrar ao novo primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez, o secretário-geral do Podemos, Pablo Iglesias.

"Formou um governo com gente que agrada ao Ciudadanos e ao Partido Popular e sem ninguém que seja próximo de nós. É uma declaração de princípios. Sánchez sorriu a Mariano Rajoy e a Albert Rivera e levou apenas 24 horas a esquecer-se de quem o ajudou a tornar-se chefe do governo", declarou Pablo Iglesias na TVE. "Quem o tornou primeiro-ministro não foi nem Rivera nem Rajoy mas sim nós".

O líder do Podemos referia-se ao facto de a moção de censura do PSOE de Sánchez contra Rajoy ter sido aprovada, há uma semana, com a ajuda do Unidos Podemos (Podemos e Esquerda Unida), PNV, EH Bildu, ERC, PDeCAT, Compromís e do Nova Canárias). Isto porque os socialistas só têm 84 deputados no Parlamento, num total de 350 eleitos (e para aprovar a moção precisavam de pelo menos 176, tendo conseguido 180).

"Passar pela Moncloa com o governo mais débil da história de Espanha vai ser provavelmente um calvário para Sánchez", prosseguiu, insistindo na ameaça que já anteriormente fizera: "Se não estivermos no governo então estaremos na oposição".

Criticando a composição do Executivo espanhol, minoritário, feminista, europeísta, Iglesias deu o exemplo do novo ministro do Interior Fernando Grande-Marlaska. "Um ministro que parece do PP", afirmou em entrevista à TVE. Conhecido pela sua luta contra o Batasuna e contra a ETA (tal como o ex-juiz Baltasar Garzón), Fernando Grande-Marlaska é o primeiro ministro da democracia espanhola assumidamente homossexual.

As declarações de Iglesias contra o novo primeiro-ministro, cujo governo tomou esta quinta-feira posse na presença do rei Felipe VI de Espanha, só vêm mostrar que um dos principais desafios do líder socialista é a estabilidade política e parlamentar.

Outro grande desafio, admitiu esta quinta-feira o novo ministro dos Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, é a deriva independentista a que se tem assistido na Catalunha. "São tempos difíceis. A Espanha enfrenta, talvez, o maior problema que pode enfrentar um país: o da sua integridade territorial", disse Borrell, que é catalão, na cerimónia oficial de transferência da pasta dos Negócios Estrangeiros do seu antecessor Alfonso Dastis.Ex-presidente do Parlamento Europeu (PE), Borrell também defendeu que "a UE enfrenta uma crise".

A sua nomeação já foi criticada pelos partidos independentistas catalães que há uma semana apoiaram a moção de censura de Sánchez contra Rajoy. "Começamos mal. Não é uma má notícia. É uma péssima notícia para nós", declarou o atual presidente da Generalitat Quim Torra. Também Carles Puigdemont, ex-presidente catalão, atualmente exilado em Berlim, criticou Borrell.

Do lado dos bascos e navarros, o porta-voz da EH Bildu no Parlamento de Navarra, Adolfo Araiz, afirmou que a sua coligação dará cem dias ao governo de Sánchez antes de o julgar, mas não deixou de criticar igualmente as nomeações de Marlaska e Borrell. "[O ministro dos Negócios Estrangeiros] "desclassificou toda a atuação do processo catalão e por isso não é a pessoa adequada".

O responsável da EH Bildu referia-se ao facto de Borrell ter afirmado, em dezembro de 2017, durante a campanha para as eleições autonómicas catalãs antecipadas que "era preciso desinfetar a Catalunha antes de coser feridas". Foi num comício dos socialistas catalães, em que fez declarações irónicas sobre o líder da ERC Oriol Junqueras: "A mim faz-me lembrar um padre lá da minha terra, têm a mesma arquitetura física e mental".

Apesar dos primeiros sinais internos apontarem para a instabilidade, mais tarde ou mais cedo, a Comissão Europeia indicou ontem que está preparada para trabalhar com o novo governo espanhol. "Estamos prontos para trabalhar com o novo governo", disse na conferência de imprensa diária um porta-voz do executivo comunitário. Alexander Winterstein lembrou ainda que o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, já falou com Sánchez, tendo-o convidado a visitar Bruxelas. Idêntico convite fez o presidente do PE, Antonio Tajani.

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