Hillary declara guerra a Sanders para evitar novo pesadelo no Iowa

Ex-primeira-dama criticou senador por defender direito às armas. Ele atacou-a por causa das ligações a Wall Street

À medida que se aproximam os caucus (assembleias populares) do Iowa - faltam menos de 15 dias -, Hillary Clinton já acusa a pressão. O pior pesadelo da ex-primeira-dama é ver repetir-se o cenário de 2008, quando ficou atrás de Barack Obama e John Edwards no estado que lança as primárias para a escolha dos nomeados dos partidos para as presidenciais de novembro nos EUA. Agora as sondagens dão um empate com Bernie Sanders e foi com isso em mente e decidida a desta vez não deixar ninguém meter-se entre ela e a Casa Branca que Hillary lançou o ataque ao senador no debate de ontem na Carolina do Sul.

A poucos metros da igreja onde em 2015 nove pessoas morreram num tiroteio, Hillary atacou Sanders e a sua defesa das armas. A ex-secretária de Estado recordou que o Vermont, estado que Sanders representa no Senado, tem um dos maiores rácios de armas por habitante e garantiu que no passado o autointitulado socialista democrático votou ao lado do lóbi das armas. Sanders respondeu que a NRA daria "nota negativa" às suas votações e garantiu que apoia totalmente as medidas restritivas apresentadas por Obama.

Mais contida do que é habitual e empenhada em mostrar as contradições do adversário, Hillary, de 68 anos, denunciou ainda o "Medicare para todos" proposto por Sanders para dar um seguro de saúde aos 29 milhões de americanos que ficaram de fora da reforma da saúde de Obama. Segundo a mulher do antigo presidente Bill Clinton, a proposta do senador ameaça a reforma feita por Obama, numa altura em que os republicanos ainda a estão a contestar. "Ninguém está a pôr nada em causa. Estamos a seguir em frente!", garantiu Sanders.

Longe do ambiente de quase camaradagem dos outros debates, Sanders, de 74 anos, gesticulou, abanou a cabeça e até levantou o vozeirão quando acusou Hillary de ser uma aliada dos ricos e poderosos. "Eu não recebo dinheiro dos grandes bancos, não sou pago para discursar na Goldman Sachs", sublinhou o senador. E acrescentou: "Tenho grandes dúvidas sobre pessoas que recebem dinheiro de Wall Street."

Muito apagado - no debate e nas sondagens - esteve Martin O"Malley. O ex-governador, que não passa dos 5% nos estudos de opinião, teve o momento alto da noite quando defendeu o seu currículo à frente do Maryland em termos de limite à venda de armas. "Nunca conheci um caçador que se preze que precise de uma espingarda semiautomática AR-15 para abater um veado", garantiu.

Sanders vencedor?

Empatada com Sanders no Iowa, atrás do senador no New Hampshire - que vai a votos a 9 de fevereiro -, Hillary parece ter vários motivos para preocupação. Mesmo se a nível nacional continua a ter uma vantagem considerável sobre o adversário democrata. Além do mais, os principais meios de comunicação americanos parecem estar de acordo em considerar o veterano Sanders como vencedor do debate na Carolina do Sul. "Sanders brilhou... por vezes ofuscando Hillary num formato que ela domina", escreveu Alex Seitz-Wald, da NBC. Também Conor Friedersdorf, da revista The Atlantic, escreveu: "Vou considerar o debate desta noite como uma vitória de Sanders. Foi melhor do que Clinton." Perante este cenário, Hillary parece apostar tudo na Carolina do Sul, o terceiro estado a realizar primárias, a 27 de fevereiro. Ali, a ex-primeira-dama espera beneficiar do voto da grande comunidade negra, entre a qual é bastante popular.

Vou considerar o debate desta noite como uma vitória de Sanders. Foi melhor do que Clinton

No Iowa e no New Hampshire (este vizinho do Vermont), o discurso antissistema de Sanders conquistou votos, sobretudo entre um eleitorado mais jovem e liberal.

Perigosa aproximação a Obama

Após meses a afastar-se das políticas de Obama - o homem que em 2008 lhe roubou a nomeação democrata e do qual foi depois chefe da diplomacia -, Hillary mudou de estratégia. Pressionada por Sanders, na Carolina do Sul, a ex-primeira-dama defendeu o legado do presidente, sobretudo a sua reforma da segurança social. Uma estratégia que visa conquistar o voto dos mais jovens e da ala progressista do partido, mas que pode virar-se contra ela. Tudo porque se for Hillary a nomeada democrata, o seu adversário republicano - seja ele qual for - não irá hesitar em acusar a ex-chefe da diplomacia de representar, na verdade, um terceiro mandato Obama.

Esquecendo as diferenças com o presidente em assuntos como a Síria, o comércio ou a imigração, neste debate Hillary recordou as horas que passou na Situation Room a aconselhar Obama. As críticas não se fizeram esperar. A Comissão Nacional Republicana recordou um "legado tóxico" e Ric Grenell, ex-porta-voz dos EUA na ONU, garantiu à Reuters que "quando se tem um presidente tão impopular quanto Obama e a sua ex-chefe da diplomacia apoia as suas políticas, é como se ele se apresentasse a um terceiro mandato".

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