Harvey testa Trump como Katrina testou George W. Bush

Presidente norte-americano visitou ontem o estado do Texas, mas não se deslocou à cidade de Houston para não perturbar as operações de resgate e salvamento que ainda decorrem

Cumpriram-se ontem 12 anos. A 29 de agosto de 2005 o furacão Katrina chegou a terra, entrando junto à fronteira do Louisiana e do Mississípi. A devastação que provocou na cidade de Nova Orleães ainda está fresca na memória. Mais de 1800 pessoas morreram. A Administração de George W. Bush, então presidente dos EUA, foi severamente criticada e acusada de responder tardiamente à catástrofe. O Katrina foi um murro no estômago da sua presidência. Ontem, uma dúzia de anos volvidos sobre o dia em que os ventos entraram terra adentro, Donald Trump deslocou-se à cidade de Corpus Christi, no Texas, para observar mais de perto os estragos do furacão Harvey, agora reduzido à categoria de tempestade tropical, mas não menos perigoso.

"Queremos fazer melhor do que nunca", garantiu o presidente dos EUA, acompanhado pela primeira-dama, Melania. Trump optou por não se deslocar às áreas mais afetadas, como Houston, para não desviar as atenções das operações de salvamento. "Queremos que daqui a cinco ou dez anos digam que fizemos o que tinha de ser feito. O que aconteceu foi de uma dimensão épica. Não vamos congratular-nos antes de estar tudo acabado", acrescentou o presidente ainda no encontro que teve em Corpus Christi com as autoridades locais.

Depois de abandonar o quartel de bombeiros onde teve lugar a reunião, Trump dirigiu-se às pessoas que o aguardavam: "Que multidão, que grande afluência", disse, agradecendo a presença dos cidadãos. Nem todos eram apoiantes do presidente. "Mentiroso, batoteiro, racista", podia ler-se num cartaz. De seguida Trump voltou a embarcar no Air Force One rumo a Austin.

A única certeza dos meteorologistas é que a quantidade de precipitação nos últimos dias não tem precedentes. Além de afetar muitas vidas, a natureza volta assim a testar a capacidade de resposta de um presidente norte-americano. Pelo menos dez pessoas morreram até agora e cerca de 30 mil necessitam de abrigos de emergência. A cidade de Houston - a quarta mais populosa dos EUA, com 6,8 milhões de habitantes na área metropolitana - está praticamente paralisada.

O Harvey bateu ontem o recorde de precipitação na parte continental dos EUA. Em algumas zonas de Houston foram ultrapassadas as 48 polegadas (122 centímetros) de precipitação desde sexta-feira. Esse era o anterior máximo de chuva provocada por um fenómeno tropical. Aconteceu em 1978, em Medina, no Texas, com o ciclone Amelia. Tendo em conta as previsões para os próximos dias, é possível que o máximo absoluto de 52 polegadas (132 centímetros), na ilha do Havai, em 1950, seja também atingido.

A chuva continuará a cair com uma intensidade elevada nas próximas horas, devendo estender-se em direção a nordeste. As previsões apontam para que chegue hoje ao Louisiana, 12 anos e um dia depois de o estado norte-americano ter sido atingido em força pelo Katrina.

Apesar da semelhança das imagens entre as inundações de Houston e de Nova Orleães, do ponto de vista meteorológico os dois fenómenos têm pouco em comum. Há 12 anos as cheias não foram, como agora, provocadas pela intensa precipitação, mas sim pelos diques que não foram capazes de aguentar a chamada maré de tempestade - que acontece quando um furacão faz elevar o nível das águas junto à costa. O problema foi ainda mais agravado pelo facto de a cidade estar abaixo do nível do mar.

"Estamos a lidar com um dos piores desastres naturais da nossa história", afirmou George W. Bush a 31 de agosto de 2005, depois de sobrevoar a zona afetada a bordo do Air Force One. Há dois anos, no décimo aniversário do desastre, a Vanity Fair publicou um artigo intitulado "As cheias que afundaram George W. Bush". O então presidente foi muito criticado pelo tempo que demorou a reagir e a interromper as férias. "As pessoas estavam a afogar-se e o presidente a tocar guitarra em San Diego", pode ler-se na peça da prestigiada revista norte-americana. A 2 de setembro, Ray Nagin, o então autarca de Nova Orleães dava um entrevista em que criticava de forma feroz a falta de ajuda adequada por parte do governo federal. Trump, ao garantir que quer fazer melhor do que nunca, pretende evitar um Harveygate semelhante ao Katrinagate de Bush.

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