Hamon divide socialistas. Macron é o mais forte para travar Le Pen

"Todos os partidos estão a adotar um tom populista", diz analista do Science Po ouvida pelo DN. Primeiro-ministro Cazeneuve afirma que a esquerda não terá sucesso se não defender com orgulho legado de Hollande

O Partido Socialista e a direita tradicional podem ver-se sem qualquer candidato na segunda volta das presidenciais francesas. A vitória de Benoît Hamon - ex-ministro da educação de Manuel Valls - nas primárias representou uma guinada do PS à esquerda que deixou insatisfeitos muitos militantes da ala mais moderada. Entretanto, à direita, François Fillon sofreu um duro golpe com o escândalo de uso indevido de fundos públicos que envolve a sua mulher - os dois estiveram ontem a ser interrogados pela polícia. Fazendo fé nas sondagens, poderá ser o independente-ex-socialista Emmanuel Macron a disputar a segunda volta com a populista Marine Le Pen, líder da Frente Nacional.

A última vez que uma das duas principais famílias políticas francesas não se qualificou para a ronda decisiva foi em 2002. Nessa altura, o socialista e primeiro-ministro Lionel Jospin ficou em terceiro lugar, atrás de Jean-Marie Le Pen (pai de Marine). Jacques Chirac venceria o duelo decisivo com 82% dos votos.

Desta vez serão cinco os principais protagonistas da corrida eleitoral. Da direita para a esquerda: a populista Marine Le Pen, o conservador Fillon, o centrista-liberal Macron, o socialista-radical Hamon e, por fim, o esquerdista Jean-Luc Mélenchon. Na mais recente sondagem (ver infografia), divulgada no domingo à noite pelo Le Figaro, Marine Le Pen aparece como a candidata mais forte na primeira volta de 23 de abril com 25%. Em renhida disputa pelo segundo lugar surgem François Fillon (22%) e Emmanuel Macron (21%). Benoît Hamon, em quarto, não recolhe mais do que 15% das eleições de voto.

"É provável que Hamon, durante a campanha, tente, em vão, convencer Macron e Mélenchon a abdicarem em favor da sua candidatura. Se não o conseguir terá um resultado fraco", explica ao DN Florence Faucher, professora de Ciência Política no instituto Science Po, em Paris. "O objetivo de Hamon é marcar uma posição para o seu futuro dentro do PS", acrescenta a especialista.

A vitória de François Fillon e de Hamon nas primárias tem um denominador comum: nem um nem outro eram os candidatos mais conhecidos e à partida mais fortes. Pelo caminho ficaram o ex-presidente Nicolas Sarkozy e Manuel Valls, que deixou o cargo de primeiro-ministro para apresentar a candidatura. Da mesma maneira que os (em teoria) outsiders levaram a melhor sobre os pesos-mais-pesados dentro de cada família política, é possível que a nível nacional os franceses venham a penalizar o centro político mais tradicional (os candidatos apoiados pelo PS e pel"Os Republicanos) em prol de alternativas mais vincadamente antissistema (Le Pen e o ex-socialista Macron). Talvez por isso, para tentar estancar a sangria de apoios, "todos os partidos estão a adotar um tom populista", sublinha Faucher. A politóloga francesa refere que a situação é ainda mais "delicada" para o Partido Socialista, que "está no poder e a ser atacada por vários lados".

No que diz respeito à segunda volta, marcada para 7 de maio, a sondagem indica que Le Pen perderá quer para Fillon quer para Macron. A derrota seria mais pesada contra o dissidente socialista (35%-65%) do que contra o nomeado d"Os Republicanos (40%-60%). Isto mostra que Macron chega mais facilmente no eleitorado de direita do que Fillon no de esquerda. Num eventual duelo entre os dois, Macron levaria a melhor (58%-42%).

"Macron contra Le Pen ou Fillon contra Le Pen são os cenários mais prováveis", defende Florence Faucher. "Mas não é claro o que a esquerda fará nos dois casos. Fillon pode ser visto como mais ligado ao sistema do que Le Pen e por isso motivar uma maior abstenção. Mas Macron é tão centrista que aqueles que se sentem desapontados com Hollande podem preferir não ir votar. De qualquer forma, Macron seria capaz pelo menos de atrair o centro-direita", acrescenta a professora do Science Po.

O primeiro-ministro Bernard Cazeneuve recebeu ontem Benoît Hamon. Garantiu-lhe o apoio, mas também deixou um aviso: "A esquerda não terá sucesso se não assumir com orgulho os resultados da governação de François Hollande".

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