"Há visão mas não há estratégia para a unidade do Atlântico"

No VI Encontro Triângulo Estratégico América Latina-Europa-África, que acaba hoje em Lisboa, olhou-se para o passado a pensar no futuro das relações entre estas três regiões

O oceano Atlântico, que no passado foi símbolo de unidade, serviu também para dividir os povos. Para recuperar essa união "existe visão, mas não há uma estratégia nem um ator político que a queira pôr em prática", defendeu ontem o professor Nuno Severiano Teixeira, ex-ministro da Defesa. No VI Encontro Triângulo Estratégico América Latina e Caraíbas-Europa-África, organizado pelo Instituto para a Promoção da América Latina e Caraíbas (IPDAL), o conselheiro de Estado Luís Marques Mendes pediu menos "romantismo" e mais "pragmatismo" para aproveitar o "potencial enorme" destas três regiões.

Severiano Teixeira lançou o debate sobre "Atlântico - Fator de União entre Povos" lembrando que este já foi um mar europeu, entre os séculos XVI e XVIII, quando a Europa se estendia para o continente americano. "A Revolução Francesa e a independência dos EUA introduziram uma rutura, que se prolonga de formas várias até aos nossos dias", explicou o diretor do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa. As guerras napoleónicas afastaram os EUA da Europa e comprovaram o declínio das potências ibéricas e aceleraram as independências dos países da América Latina, lembrou, defendendo que "a partir de então, o que assistimos é uma separação longitudinal entre o Velho Continente e o Novo Mundo".

Paradoxalmente foi no Pacífico que ocorreu uma espécie de reunificação do Atlântico, já que o ataque a Pearl Harbor levou os EUA a entrar na Segunda Guerra Mundial e a forjar a aliança que levaria ao poderio norte-americano do Atlântico Norte, consolidado na NATO. "São os EUA o garante da unidade ocidental, da defesa europeia. São os EUA que se transformam numa potência europeia", referiu. Mais tarde, a descolonização e as independências dos países africanos vieram quebrar a relação que existia entre África e Europa. "Tínhamos então um Atlântico dividido não só do ponto de vista longitudinal como vertical."

Face a este cenário será possível reinventar a unidade do Atlântico? Para Severiano Teixeira há condições - existe homogeneidade política e interesses comuns - apesar de haver também muitos obstáculos - o privilégio de uma lógica regional ou a falta de inter-relação nos fóruns existentes. "Há uma visão possível, mas falta uma estratégia e falta um ator que a queira pôr em prática", explica, referindo-se aos EUA, mais preocupado com o Índico do que com o Pacífico. Qual é a causa que pode motivar: a de divisão entre potências democráticas e autoritárias. "Procurar um Atlântico que não seja europeu como era até 1789, que não seja ocidental como era até 1991, mas que seja democrático", concluiu.

"A relação com África e com a América Latina não substitui a nossa opção europeia e a nossa visão atlântica. Complementa-a", disse Marques Mendes, defendendo que há ainda "muitíssimo a fazer" nesse âmbito. "O nosso desafio é transformar algum romantismo que caracteriza a nossa excelente relação num pragmatismo de ação e de intervenção muito maior do que o que tem existido até agora." Transformar as boas relações no plano "político, histórico, cultural e de afetos" numa grande capacidade económica e parceria comercial.

No âmbito desta relação triangular, o chairman da Global Media (grupo do DN), Daniel Proença de Carvalho, lamentou que ainda não tenha sido possível implementar a ideia, de que se fala há anos, de um grande portal de informação que una as agências de notícias em língua portuguesa, para fomentar as relações entre os países lusófonos. "A verdade é que existe muito pouco conhecimento e divulgação das realidades sociais, políticas e económicas entre os países", admitiu, reconhecendo aí o papel fundamental dos media.

Ler mais

Exclusivos