Há uma corrente #MeToo em Espanha. Chama-se La Caja de Pandora e é (quase) secreta

Artistas criaram uma conta privada no Facebook onde estão a reunir denúncias sobre agressores sexuais no meio cultural e académico. "Estamos a criar uma rede para a América Latina", alertam

Chama-se La Caja de Pandora (A Caixa de Pandora) e dela já fazem parte 3.000 mulheres das artes e da literatura espanhola que reúnem testemunhos de abusos sexuais numa conta privada no Facebook. Algumas contam casos de que foram vítimas e outras apoiam estas mulheres que confessam, validando as suas histórias e o seu sofrimento. Por agora, tudo se passa em privado, mas a plataforma já fez saber que há um nome que é repetido pelas mulheres e que as outras estão a preparar-se para o revelar quando chegar a altura certa.

O grupo, que já é chamado de o #MeToo espanhol, contam o El País e o El Español, formou-se ainda antes das denúncias acerca do produtor de Hollywood, Harvey Weinstein, em outubro do ano passado, que pouco depois deram origem ao movimento #MeToo.

O grupo teve o seu início no verão de 2017, pouco depois da artista espanhola Carmen Tomé ter denunciado que tinha sido vítima de abuso por Javier Duero, um professor convidado que estava em Las Cigarreras, Alicante, na mesma altura em que Tomé participava numa residência artística.

A artista leu publicamente a queixa que apresentou contra o professor, onde contou que os "toques" aconteceram na lavandaria do edifício onde decorria a residência, e que, meia hora depois do sucedido, o agressor terá pedido desculpas, justificando que "não via a companheira há muito tempo e estava a subir paredes". O caso chegou a tribunal e o professor negou tudo, mas o julgamento continua.

"Ela não ficará sozinha no julgamento", dizem as mulheres do grupo La Caja de Pandora.

"A grandeza deste grupo é que os testemunhos foram recolhidos de mulheres de todas as idades, alguns casos já prescreveram, mas outros não. Incluem diretores e curadores de museus, bem como artistas. Fizemos uma rede para a América Latina ". Uma enorme rede, que as surpreendeu no início, mas que tem crescido.

"Há muita dor e casos terríveis e temos de as enviar para consultas psiquiátricas, porque elas precisam de ajuda", explicou uma das mulheres envolvidas no grupo ao jornal ao El País.

A pergunta impõe-se. Porque não denunciam publicamente todos esses casos tal como fizeram as atrizes e outras artistas norte-americanas?

"Vamos com calma, queremos mudar a estrutura e esta é uma fase para reunir dados e confissões, porque sabemos de casos em que os agressores foram julgados e venceram. Houve mulheres que tiveram de abandonar a universidade, mas os seus agressores continuam lá", revela o membro do grupo La Caja de Pandora.

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