"Há um retrocesso no relacionamento entre os EUA e a América Latina"

O DN falou com o chefe da diplomacia do Urugai, Rodolfo Nin Novoa.

Rodolfo Nin Novoa, ministro dos Negócios Estrangeiros uruguaio, esteve em Portugal para uma visita oficial que incluiu um encontro com o homólogo Augusto Santos Silva. Antigo vice-presidente, quando Tabaré Vázquez foi pela primeira vez presidente, o chefe da diplomacia falou ao DN sobre a tradição democrática do seu país, de 3,5 milhões de habitantes (o mais pequeno alguma vez campeão mundial de futebol). Realçou ainda o empenho do Uruguai na CPLP, de que é observador.

Qual é a posição do Uruguai em relação à Venezuela, o país mais fraturante hoje na América Latina?

O Uruguai faz parte do único mecanismo regional que tomou medidas concretas sobre a Venezuela. Aplicando a Carta Democrática do Mercosul, essa organização política e económica suspendeu a Venezuela. Foi uma decisão tomada por Uruguai, Brasil, Paraguai e Argentina. Mas, apesar disso, nós, que somos críticos da Venezuela, acreditamos que esta não deve ser isolada. Porque a situação na Venezuela afeta toda a América Latina, sobretudo os vizinhos Brasil e Colômbia. Na Organização dos Estados Americanos fizemos uma declaração, subscrita pelo Uruguai, a apelar ao presidente venezuelano para que adiasse as eleições, para que tivesse observadores internacionais e não houvesse proscritos nem presos políticos e fossem limpas e transparentes. O governo do presidente Maduro efetivamente adiou as eleições, ainda que por pouco tempo, passou-as de abril para maio, mas sobre as outras questões não temos novidades. Portanto, serão umas eleições de resultados difíceis de aceitar para muitos países da América Latina.

Como país com longa tradição democrática, como se vê do Uruguai o triunfo da democracia na América Latina, mas com emergência de fenómenos populistas? Pode o seu país, embora pequeno, ser um exemplo para a América Latina?

O Uruguai é das poucas democracias plenas que existem no mundo. Temos absoluta liberdade de imprensa, de expressão, de reunião, etc. E sempre fomos um país avançado em termos de direitos sociais e económicos. O nosso rendimento médio por habitante está sempre entre os mais altos da América Latina. Há 15 anos que a nossa economia está a crescer sem interrupções. Quanto a sermos um exemplo, sim, temos uma tradição democrática e de justiça social que remonta a 1910, aproximadamente. Como consequência, no nosso ADN está uma visão progressista e solidária da sociedade. E todos os governos, em maior ou menor escala, sempre a aplicam. Desse ponto de vista, o Uruguai é uma referência para muitos países.

Como é ser ministro dos Negócios Estrangeiros de um país que nasceu de uma guerra entre Brasil e Argentina e que sempre foi uma espécie de Estado-tampão? É uma situação confortável?

É confortável porque o Uruguai ganhou muito respeito ao longo da história. Pelos valores democráticos e de justiça social. Parece-me que existe uma institucionalidade que faz que o Uruguai seja respeitado mesmo sendo um pequeno país situado entre dois gigantes. O Uruguai tem a nível internacional um peso muito maior do que o natural para o seu tamanho. Acabámos de fazer parte do Conselho de Segurança da ONU e sempre muito escutados.

Quando há uma crise no Brasil ou na Argentina, o impacto é imediato no Uruguai?

O Brasil é o segundo maior mercado para as nossas exportações e se lá há crise claro que nos ressentimos. A Argentina é o nosso principal fornecedor de turistas, mais do que a nossa população cada ano. Quando há medidas restritivas para sair do país, como na época dos Kirchner, afeta-nos muito, porque o setor do turismo traz mais divisas do que a carne.

Como se explica que a China, país tão distante do Uruguai, compre e venda mais do que um vizinho como o Brasil?

Uruguai e Brasil têm economias com muitas semelhanças, sobretudo o agroindustrial, que é um dos nossos pontos fortes. Assim, é natural que se venda carne à China e não ao Brasil, ainda que a qualidade seja distinta. Somos o principal fornecedor de carne bovina à China. E isso deve-se ao progresso tecnológico, que permite hoje fazer negócio com a carne e garantir a qualidade.

Esta relação económica com a China é pacífica entre os partidos uruguaios?

Sim, e creio mesmo que nós, países do Mercosul, temos de tentar um acordo comercial com a China, para beneficiar de taxas zero como acontece já com outros e falo da Austrália e da Nova Zelândia.

Como se posiciona o Uruguai perante os EUA? Sei que há pouco tempo repudiou um pedido americano para que expulsasse diplomatas russos.

Sim, houve esse pedido, mas dissemos que não tínhamos nenhuma razão para expulsar russos, porque somos amigos de todos os países no mundo. Foi uma recusa rotunda, pois o pedido era impertinente e inconveniente. Não temos de nos imiscuir nos conflitos alheios.

Ainda se sente muito na América Latina a influência dos EUA?

O novo governo do Sr. Trump tem insistido em políticas na América Latina que só pensam nos interesses próprios, sobretudo políticos. Na cimeira das Américas isso foi evidente. Depois de uma passagem do secretário de Estado Tillerson por Lima, o Peru desconvidou a Venezuela. Uma grande ingerência. E, claro, há a questão do muro com o México e o retrocesso na normalização com Cuba. Creio que em geral há um retrocesso grande no relacionamento entre os Estados Unidos e a América Latina.

Como estão hoje as relações entre o Uruguai e Portugal, que vêm desde antes da independência, pois já no século XVII havia a Colónia de Sacramento no rio da Prata?

Portugal tem influência histórica muito forte no Uruguai. As relações diplomáticas começam em 1835, com embaixador português em Montevideu. O Uruguai participa desde 2016 como observador na CPLP e cada vez se ensina mais o português, muito por influência da proximidade do Brasil. Só as relações económicas continuam por desenvolver, mas há interesse mútuo em o fazer.

Foi vice-presidente de Tabaré Vázquez, agora de novo presidente. Também conhece bem o ex-presidente Mujica. O que distingue estes dois homens?

Ambos escutam muito as pessoas. Isso é comum, tal como serem carismáticos. Mas Mujica tem um estilo único. Mais extrovertido. Muito campechano, como dizemos no Uruguai. E há uma grande continuidade Vázquez, Mujica, Vázquez. Pela construção de uma sociedade justa.

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Nuno Artur Silva

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