"Há muitos políticos na Europa que têm inveja de Viktor Orbán"

O ministro húngaro dos Negócios Estrangeiros e do Comércio veio a Lisboa para a palestra "A nova era das relações externas económicas - o sucesso do modelo húngaro".

Num evento organizado pelo AICEP e pela Câmara de Comércio Luso-Húngara, Péter Szijjártó falou também do fundo húngaro-português - dotado de 20 milhões de euros - pensado para as PME"s que queiram apostar no mercado lusófono e, noutro sentido, entrar nos mercados da Europa Central. Com o DN, o ministro falou das relações com a União Europeia.

Como vai a economia húngara? Estar fora da zona Euro é uma vantagem?

A economia húngara tornou-se parte da solução na Europa, em vez de parte do problema como costumava ser há uns poucos anos. Para isto precisámos de um tipo não-convencional de política económica, muita coragem e a diligência do povo húngaro. Agora estamos, perto do emprego pleno, pois a nossa taxa de desemprego desceu de 12,5 % para 4,2%, em sete anos. E temos 4,4 milhões contribuintes no país, em vez de 1,8 milhões como em 2010. A nossa economia está agora na fronteira duma mudança de dimensão, para uma fase onde é muito mais importante ter empregos de alto valor acrescentado do que o número de novos empregos. Então é por isso que adotámos medidas fiscais para ajudar as empresas que gastam em I&D, que fazem soluções inovadoras, que atualizam as suas tecnologias, essa é a razão por que baixámos o IRC para 9%.

É a taxa mais baixa da União Europeia?

Sim, sim, sim. E a única de um só dígito, e é taxa fixa. E a razão para cortar de 19% para 9% foi que compreendemos que estas empresas que têm sido bem-sucedidas até agora na manufatura e produção, de maneira a manter a sua competitividade nesta nova era tecnológica precisam de fazer grandes investimentos. Foi por isso que descemos a taxa para 9%, para que haja mais dinheiro a ficar nas empresas, que elas podem investir.

E estar fora do euro, que impacto tem?

Está inscrito na Constituição que a moeda nacional húngara é o florim, logo para mudá-la precisa-se de uma maioria de dois terços. E o que lhe posso dizer é que apenas se deve mudar para o euro se houver duas pré-condições satisfeitas. Tem de se estar 100% pronto, e a zona euro tem de estar 100% pronta.

O seu predecessor no ministério é agora comissário europeu e a Hungria já vai em 13 anos de União Europeia. Mas ao mesmo tempo o seu país está sempre nas notícias por causa de choques com Bruxelas. Como é que descreve a relação com a União Europeia? O pior já passou?

Nós percebemos que a União Europeia está a ser confrontada com desafios históricos, porque se puser em consideração migração, ameaça do terror, brexit, guerra na Ucrânia, insegurança energética, um só destes cinco desafios seria suficiente para se ter dificuldades. E considero totalmente natural que se discuta sobre que caminho a seguir de forma a fazer a União Europeia mais forte. E dado que somos 28 membros Estados soberanos é natural que tenhamos debates sobre tais desafios. Portanto, eu diria que, por favor, não levem como uma tragédia que haja debates na União Europeia. É uma questão de democracia: 28 membros, 28 histórias, 28 experiências, 28 diferentes tipos de abordagem. Não devemos tirar o direito dos países de debaterem o futuro. Percebemos que há abordagens diferentes da que nós pensámos que fará a União Europeia mais forte. E a nossa abordagem tem o mesmo objetivo que a maneira convencional porque eu acho que os objetivos de todos é fazer a União Europeia mais forte. Agora como lá chegar... Nós rejeitamos a posição de alguns Estados-membros e Bruxelas em si mesma que dizem que nós devemos criar uns Estados Unidos da Europa. Rejeitamos isso, não achamos que essa seja a maneira, porque se olhar para os últimos dois anos, as respostas aos desafios que provam ser bem-sucedidas foram dadas pelos Estados-membros e não por Bruxelas. Penso, sim, que a União Europeia só pode ser forte se os Estados-membros em si forem fortes. E a integração apenas pode ser forte se for construída na base de fortes Estados-membros. Nós temos uma perspetiva soberanista neste aspeto e esta abordagem não está de acordo com a abordagem dos burocratas sentados em Bruxelas.

Depois de todo este criticismo para com o seu país, quão popular ainda é a União Europeia entre os húngaros?

Oh, a União Europeia é muito popular, portanto não é uma questão se o nosso país deve ou não estar na União Europeia.

Mas não há críticas, por exemplo sobre a política para os refugiados, que mudem a opinião das pessoas?

Não, não há debate sobre isso. O debate é sobre como a União Europeia se parecerá no futuro. E claro que nós não gostamos dos duplo standards, que são aplicados por Bruxelas muitas vezes. Não gostamos da hipocrisia, aplicada por Bruxelas muitas vezes. Não gostamos do politicamente correto, que nos algema basicamente em grandes desafios para ultrapassar. Quando apresentamos os nossos planos, não é porque sejamos antieuropeus ou algo assim, é porque somos muito pró-europeus e queremos que a União Europeia seja mais forte no futuro. E rejeitamos a abordagem que diz que se não pensa como Bruxelas, ou se não pensa como o mainstream, então é antieuropeu. Não gostamos do facto de os debates ficarem imediatamente emocionais, porque se os nossos debates sobre o futuro da Europa se tornam emocionais, então não haverá solução no final para concluir. Portanto queremos que estes debates continuem pragmáticos. Mas como vê, se se apresenta uma abordagem diferente de Bruxelas é-se estigmatizado imediatamente.

Foi porta-voz do primeiro-ministro Viktor Orbán, que conhece bem. Como reage quando vê na imprensa internacional gente a dizer que este é um líder autocrático, e até o presidente da Comissão Europeia a dizer a brincar numa cimeira que "vem aí o ditador"?

Acho que muitos líderes políticos têm muita inveja do nosso primeiro-ministro. Porque o nosso primeiro-ministro conseguiu ganhar eleições democráticas com uma grande maioria duas vezes de seguida. E outros líderes europeus não foram capazes de o fazer. Se olhar para a paisagem política europeia agora, a Hungria é o Estado-membro que tem o governo mais estável da União Europeia. Temos quase uma maioria de dois terços sozinhos, no parlamento. E eu compreendo que esses líderes políticos que têm de governar países com maiorias frágeis, ou coligações compostas por vários partidos que têm de equilibrar a todo o momento, ou se eles lideram um governo minoritário, nós compreendemos que eles estejam invejosos do nosso primeiro-ministro que foi capaz de ganhar eleições democráticas livres e justas por margens enormes. Sabe, nós nunca aceitaremos a abordagem que não devemos aproveitar a nossa estabilidade política, não devemos aproveitar o nosso apoio do povo. Isto é o número um. Número dois: o nosso primeiro-ministro foi o primeiro líder político a exigir que as forças soviéticas saíssem do país pela primeira vez abertamente. Ele fundou uma organização que esteve a lutar contra o comunismo. Foi a figura mais importante da transição da Hungria da ditadura para a democracia. Portanto após este feito, acusá-lo de não ter intenções democráticas é simplesmente engraçado...

Mas o seu partido, Fidesz, é mais conservador agora do que nos anos 1990, a primeira vez que governou?

É muito difícil comparar, porque nos anos 1990 tivemos um papel totalmente diferente do que temos agora. O que lhe posso dizer agora é que nós temos um governo profundamente democrata-cristão, pode-lhe chamar conservador, tanto faz, mas é um governo democrata-cristão. Achamos que os valores cristãos são muito importantes e estamos a construir uma sociedade justa, baseado no facto de o progresso vir através do mérito, e o mérito vir através da performance no trabalho, aquilo que a pessoa se esforça e como desempenha a função. Os resultados que alcançámos provam que estávamos certos, que a estratégia que escolhemos provou ser bem-sucedida. E o que lhe posso dizer é que penso que o nosso primeiro-ministro é o líder mais democrático na Europa, e sabe porquê? Porque ele concorreu a sete eleições, ganhou três e perdeu quatro, mas sempre se manteve na política. Olhe para outros grandes países europeus, onde os políticos que perdem deixam a política e pode-os depois encontrar nos quadros de grandes empresas.

Uma última questão. Sendo a Hungria um antigo membro do Pacto de Varsóvia e hoje um membro da NATO, como vê esta nova tensão entre o Ocidente e a Rússia, como vos afeta?

Somos um pequeno país na Europa Central e sabemos por experiência própria que sempre que houve um conflito entre o Ocidente e o Leste a Europa Central perdeu sempre. Se olhar para a história, sempre aconteceu, independentemente da época dos conflitos, da natureza dos conflitos, independentemente de quais fossem os nomes dos países. E é por isso que instamos a que haja relações mais pragmáticas entre o Ocidente e o Leste. Não o fazemos por sermos pró-russos ou pró-Putin. Nós somos pró-húngaros, e o interesse húngaro é ter uma relação mais pragmática entre o Ocidente e o Leste. Para não falar do facto que a competitividade perdida da União Europeia podia ser recuperada, pelo menos em parte, se houvesse uma cooperação mais bem-sucedida, entre a parte oriental e ocidental do continente. E sabe, o que nós vemos aqui é hipocrisia e duplos standards, porque há países que estão a falar publicamente contra a Rússia em voz muito alta, mas por baixo da mesa fazem negócios enormes.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.