Guerra entre FHC e Lula agora é em inglês

Ao texto do antigo presidente e candidato às eleições de Outubro no The New York Times, responde o seu antecessor em artigo no Financial Times

Depois seis eleições consecutivas no Brasil em que os candidatos mais votados pertenceram sempre ao PT ou ao PSDB, e das rivalidades políticas que resultaram desses duelos ao longo de 24 anos, os líderes espirituais dos dois partidos, Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso (FHC) protagonizam agora uma batalha em inglês. Com uma semana de intervalo, o presidente de 2003 a 2010 e o chefe de estado de 1995 a 2002 assinaram artigos em sentido contrário em dois dos mais prestigiados jornais do mundo, o norte-americano The New York Times e o britânico Financial Times, respetivamente.

Lula escrevera no jornal de Nova Iorque que era vítima de um golpe, cuja primeira parte culminou com o impeachment de Dilma Rousseff e a segunda consistiu na sua prisão: "A minha prisão foi a última fase de um golpe em câmara lenta destinado a marginalizar permanentemente as forças progressistas no Brasil".

"Eu não peço para estar acima da lei, mas um julgamento deve ser justo e imparcial. Essas forças de direita condenaram-me, prenderam-me, ignoraram a esmagadora evidência da minha inocência e negaram-me habeas corpus apenas para tentar impedir-me de concorrer à presidência. Eu peço respeito pela democracia. Se eles querem derrotar-me de verdade, façam-no nas eleições", disse ainda o ex-sindicalista de 72 anos.

"O meu sucessor como presidente falsamente se apresenta como vítima de uma conspiração da "elite"", reagiu, entretanto, FHC nas páginas do jornal londrino. "É uma grave distorção da realidade dizer que há uma campanha direcionada no Brasil para perseguir indivíduos específicos, o meu país merece mais respeito", continuou.

Para o sociólogo de 87 anos, "o impeachment e a destituição de Dilma Rousseff em 2016 não foram, ao contrário do que Lula afirma, um golpe de Estado. Foi o resultado, entre outras coisas, da violação do seu governo à lei da responsabilidade orçamental do Brasil". E os processos judiciais de Lula, diz ainda Cardoso, "seguiram o devido processo e foram conduzidos de acordo com a Constituição e o estado de direito".

"O impeachment e a destituição de Dilma Rousseff em 2016 não foram, ao contrário do que Lula afirma, um golpe de Estado"

Lula, uma semana antes, acusara Sergio Moro e os juízes da Operação Lava-Jato, no âmbito da qual o antigo presidente foi condenado a 12 anos e um mês de prisão, de criarem um espetáculo em torno do seu caso. "Os conservadores do Brasil estão a trabalhar muito para reverter o progresso dos governos do PT e eles estão determinados a impedir-nos de voltar ao poder num futuro próximo. O seu aliado nesse esforço é o juiz Sergio Moro e a sua equipa de promotores, que recorreram a gravações e a fugas de informação de conversas particulares que tive com a minha família e com o meu advogado, incluindo uma escuta ilegal".

Já FHC diz que o Brasil está simplesmente a passar por um "doloroso mas necessário" processo do qual fazem parte as ações do Ministério Público e do poder judicial.

FHC, cujo partido é de centro-direita, venceu Lula duas vezes à primeira volta, em 1994 e em 1998. Lula chegou ao Palácio do Planalto quatro anos depois, em 2002, derrotando José Serra, um dos delfins de Cardoso no PSDB. Derrotaria em seguida o hoje novamente candidato à presidência Geraldo Alckmin, em 2006, aumentando até a vantagem de votos entre a primeira e a segunda voltas. Sem se poder recandidatar, indicou Dilma Rousseff como candidata em 2010 e em 2014. Nos dois sufrágios, a ex-presidente do Brasil bateu primeiro Serra e depois Aécio Neves, este último pessoalmente apadrinhado por FHC no PSDB.

Na atual eleição, à qual não deve poder concorrer por estar enquadrado na Lei da Ficha Limpa, Lula terá como eventual substituto Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo pelo PT. Já o PSDB escolheu Alckmin, embora FHC tenha sugerido a meio do processo o nome do apresentador da TV Globo Luciano Huck como eventual nomeado pelo partido, dada a impopularidade dos políticos tradicionais no pós-Lava Jato.

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