Venezuela: Guaidó terá perdido apoios por ter antecipado operação

Presidente interino discursou na Praça Altamira para os seus apoiantes, mas esta operação terá sido antecipada. Governo nega ter perdido o controlo dos militares e fala de golpe. Momentos de violência em Caracas. COM VÍDEO EM DIRETO

O presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, anunciou o arranque da fase final da Operação Liberdade para derrubar Nicolás Maduro e apelou à participação das Forças Armadas. O anúncio foi feito às primeiras horas da manhã, após libertar o opositor Leopoldo López, que estava em prisão domiciliária.

A operação, que a meio da tarde (hora de Lisboa) parecia estar num impasse, terá perdido eficácia porque foi realizada mais cedo do que o planeado.

Isso mesmo foi avançado pelo Twitter por uma das mais prestigiadas (e premiadas) jornalistas venezuelanas. Segundo Luz Mely Reyes, Guaidó pretendia iniciar a Operação Liberdade noutro dia, após contactos com "altos comandos militares" e o Supremo Tribunal de Justiça.

No entanto, escreve ainda, o facto de estar na iminência de ser detido levou a que Guiadó antecipasse a operação, o que fez que militares já contactados tivessem recuado no apoio que já lhe teriam declarado.

Siga em direto o que está a acontecer na Venezuela, pelo canal VPI TV, que diz que tem o sinal bloqueado no país. As redes sociais também estarão em baixo em Caracas.

Maduro reagiu cinco horas depois

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, cujo mandato não é reconhecido por mais de 50 países, reagiu mais de cinco horas após o apelo de Guaidó, dizendo ter o controlo e o apoio dos militares. "Nervos de aço! Conversei com os comandantes de todas as Redi [Regiões de Defesa Integral] e Zodi [Zonas de Defesa Integral] do país, que me manifestaram a sua total lealdade ao povo, à Constituição e à pátria. Apelo à máxima mobilização popular para assegurar a vitória da paz. Venceremos!, escreveu no Twitter.

Depois de convocar os apoiantes para a base aérea La Carlota por volta das 06.00 locais (11.00 em Lisboa), cinco horas depois Guaidó estava na Praça Altamira com López. Milhares de pessoas estão nesta praça, segundo as fotos que vão sendo partilhadas nas redes sociais.

Nas redes sociais surgiram denúncias de que um veículo militar terá atropelado vários manifestantes noutra zona de Altamira, próximo da base aérea de La Carlota. Haverá ainda, segundo o El Mundo, que cita a Policlínica Metropolitana de Caracas, vários feridos de balas.

O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, responsabiliza a oposição por qualquer ato de violência que ocorra a partir de agora, tendo também dito que o levantamento militar foi "medíocre". E deixou o aviso: "Se for preciso usar as armas... vamos usá-las", e que quem chegue a Miraflores "pela violência será derrubado pela violência".

MNE português condena violência

Ministério dos Negócios Estrangeiros usou o Twitter para condenar "a violência, em particular a violência dirigida contra pessoas indefesas". E apela à realização de "novas eleições livres" no país".

Lusodescendente chefe das Forças Armadas com Maduro

Chegou a ser dado como estando ao lado de Guaidó, mas o lusodescendente José A. Ornelas Ferreira, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Venezuela, declarou-se do lado de Maduro.

"Como soldado desta pátria reafirmo a minha lealdade absoluta ao meu comandante general Nicolás Maduro", escreveu no Twitter.

Guaidó mantém-se firme

Guaidó respondeu a Maduro no Twitter: "O momento é agora! Os 24 estados do país assumiram o caminho, a rua não tem volta. O futuro é nosso: povo e Forças Armadas unidos pelo fim da usurpação. Juntos somos invencíveis!" Os militares que apoiam Guaidó usam faixas ou máscaras de cor azul.

Aos apoiantes, em Altamira, disse que "hoje fica claro que as Forças Armadas estão com o povo da Venezuela e não com o ditador" e que "o golpe de Estado dá Maduro em Miraflores", referindo-se ao palácio presidencial.

"As ruas da Venezuela continuam a encher-se de gente e mais gente! Irmãos, estamos a fazer história. O fim da usurpação é irreversível", escreveu no Twitter.

Mais tarde confirmou manter contactos com os aliados na comunidade internacional, tendo recebido o apoio para este "processo irreversível de mudança" na Venezuela. "A Operação Liberdade começou e vamos resistir até conseguir uma Venezuela livre", escreveu, voltando a pedir que todos os venezuelanos vão para a rua.

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela declarou-se em janeiro presidente interino do país, depois de a Assembleia considerar que o mandato do presidente Nicolás Maduro não era válido e que havia vazio de poder. Cerca de meia centena de países, incluindo os EUA e Portugal, reconhecem Guaidó como presidente interino.

Libertação de López

Leopoldo López, dirigente da oposição que estava em prisão domiciliária, foi libertado esta manhã e apareceu ao lado de Guaidó nas redes sociais, acompanhados por militares, às primeiras horas da manhã. Numa mensagem no Twitter escreveu "Venezuela, estamos a conseguir!".

López, um dos fundadores do partido Primeiro Justiça, foi detido em fevereiro de 2014, acusado de instigação à violência nos protestos desse mês, durante os quais morreram vários venezuelanos. Foi condenado a 13 anos, 9 meses e 7 dias, estando em prisão domiciliária desde julho de 2017. Foi hoje libertado, após um indulto de Guaidó.

Mais tarde, em declarações ao jornal espanhol ABC, López apelou à mobilização dos venezuelanos de "Espanha e do mundo" pela liberdade do país.

Início do "fim da usurpação"

Na sua conta do Twitter, às primeiras horas da manhã, Guaidó anunciou ao "povo da Venezuela" que teve início "o fim da usurpação" e que se estava a juntar "com as principais unidades das Forças Armadas" para dar início " à fase final da Operação Liberdade".

Guaidó declarou que ia estar na base aérea de La Carlota, em Caracas, assinalando que "já são muitos militares" que "passaram para o lado do povo". Os seus apoiantes estão na região de Altamira, junto à base, com as forças do governo a responder com gás lacrimogéneo.

Segundo o jornalista do ABC no local, a meio da manhã eram apenas cerca de 40 os militares que estavam a proteger Guaidó e López junto à base aérea, mas não são militares de La Carlota. Na realidade, a repressão ao movimento partia desta mesma base. Onde, já se ouviram disparos de acordo com as transmissões televisivas. Há também relatos de um incêndio dentro da base, depois de alegadamente os apoiantes de Guaidó terem entrado.

"Hoje vencemos o medo. Hoje, como presidente da Venezuela, legítimo comandante das Forças Armadas, convoco todos os soldados e toda a família militar a acompanhar-nos neste feito. No marco da luta não violenta, que temos feito em todo o momento", disse Guaidó, citado no Twitter da Assembleia Nacional.

Resposta do governo

O presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Diosdado Cabello, disse na televisão venezuelana que os militares que estão ao lado de Guaidó foram enganados, alegando que está tudo tranquilo. Ainda assim, pediu ao povo de Caracas que vá imediatamente até ao Palácio de Miraflores para defender a revolução.

Centenas de apoiantes de Maduro terão respondido à chamada e lançam cânticos de apoio ao presidente.

Já o ministro da Informação, Jorge Rodríguez, diz que há um grupo "reduzido" de militares "traidores" que tentam fazer um golpe de Estado junto ao distribuidor Altamira. "A esta tentativa de golpe juntou-se a ultradireita golpista e assassina, que anunciou a sua agenda violenta há meses. Apelamos ao povo para que se mantenha em alerta máximo para, junto à gloriosa Força Armada Nacional Bolivariana, derrotar a tentativa de golpe e preservar a paz", escreveu no Twitter.

Também o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, diz que as Forças Armadas mantêm-se firmes na defesa da Constituição Nacional e das suas autoridades legítimas. "Rejeitamos este movimento golpista que pretende encher de violência o país. Os seus pseudolíderes políticos que se colocaram à frente deste movimento subversivo puseram tropas e polícias com armas de guerra numa via pública da cidade para criar caos e terror", escreveu no Twitter, acrescentando que são "uns cobardes".

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