Guaidó: "A transição é importante para existir o direito de eleger e de ser eleito"

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela fez um retrato do país via Skype nas Conferências do Estoril.

Na alocução intitulada "Justiça para a Venezuela", o presidente da Assembleia Nacional venezuelana defendeu a importância de um período de transição pós-Nicolás Maduro. "É importante a transição para que existam eleições verdadeiramente livres, para existir o direito de eleger e de ser eleito, com a presença dos principais partidos eleitorais", disse Juan Guaidó em livestream aos espectadores das Conferências do Estoril.

Guaidó lembrou também que existem milhões de eleitores venezuelanos fora do país, pelo que as eleições terão de ser precedidas de um censo eleitoral.

A mensagem do homem eleito presidente interino pela Assembleia Nacional nem sempre passou, uma vez que a emissão ficou marcada por muitas interrupções curtas.

Com a bandeira venezuelana em fundo do que aparentava ser um escritório, Guaidó fez uma radiografia da profunda crise que se vive naquele país da América do Sul. Por exemplo, sobre a corrupção afirmou que 12 países receberam 938 milhões de dólares para facilitarem ilegalidades. E que um alto funcionário recebeu 1,2 mil milhões de dólares para "endividar a nação" e facilitar o pagamento de um bónus.

À corrupção junta-se a queda da economia. "Além disso a produção petrolífera decresceu. De quase de 3,5 milhões de barris por dia, hoje não chega a 500 mil. Lamentavelmente, a economia está no sexto ano consecutivo em contração do PIB", comentou.

Guaidó lembrou que saíram do país quatro milhões de venezuelanos e dos que ficaram 25%, ou sete milhões, estão em emergência humana, como reconhece a ONU. Além disso, o salário mínimo é de seis dólares.

A isto junta-se a violência: a taxa de homicídios de Caracas é a mais alta do mundo. E "em consequência do choque de poderes há mais de mil presos políticos e 271 pessoas foram assassinadas em protestos políticos ou económicos".

O presidente reconhecido por cerca de 50 países, Portugal incluído, aponta ainda para a "grave crise aproveitada pelo narcotráfico da guerrilha colombiana ELN, que está em 11 estados da Venezuela". Estes grupos paramilitares, disse, estão ligados ao narcotráfico, extraem ouro depois usado para comprar armamento na Colômbia.

Dinheiro em Portugal servia para repressão

Guaidó afirmou que há fundos retidos em bancos de Portugal e de Espanha que eram usados pelo regime de Maduro para financiar grupos paramilitares e reprimir a dissidência.

"Alguns fundos estão protegidos, no caso de Portugal e de Espanha, porque com estes fundos o regime financiava grupos paramilitares, coletivos [grupos de motociclistas armados] que perpetravam a repressão", disse.

Perante este cenário, Juan Guaidó advoga que a Comissão eleitoral recupere as competências para marcar eleições "realmente livres e no menor espaço de tempo possível", para uma transição "pacífica e democrática"que possa "responder à crise humana".

À pergunta de Nuno Rogeiro se Juan Guaidó será candidato em eleições livres, justas e e monitorizadas, disse que é "prematuro".

O primeiro dia da sexta edição das Conferências do Estoril - que decorrem em Carcavelos, no Campus Nova SBE - contou com a presença do Prémio Nobel da Paz 2018 Denis Mukwege, da presidente da Croácia Kolinda Grabar-Kitarovic e do chefe de Estado português Marcelo Rebelo de Sousa.

Exclusivos