'Guacho' não aceitou a paz das FARC e agora é o mais procurado no Equador

Walter Artízala, antigo membro da guerrilha colombiana, lidera o grupo dissidente Frente Oliver Sinisterra. Sequestrou e matou três jornalistas equatorianos e mantém raptados outros dois civis. Já levou à demissão de ministros

O governo colombiano pode ter assinado a paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), mas nem todos os guerrilheiros aceitaram as negociações. E quando a guerrilha depôs as armas, alguns aproveitaram para assumir o controlo - nomeadamente em regiões ligadas ao narcotráfico - e até em saltar as fronteiras. Walter Patricio Artízala Vernaza, conhecido como Guacho, é um deles e as suas ações tornaram-no no homem mais procurado no Equador, que junto com a Colômbia oferece 248 mil dólares de recompensa por informações que levem à sua captura.

"O que dizem de mim é falso. Isso é mentira [que seja um sanguinário]", disse Guacho na única entrevista que deu, em setembro de 2017, à estação de televisão RCN. Nessa altura, o ex-guerrilheiro das FARC nascido em Limones (norte do Equador) ainda não tinha feito os atentados que mataram quatro militares equatorianos nem sequestrado e matado a equipa do jornal El Comércio . Estes últimos estavam a fazer uma reportagem sobre a violência naquele que é o domínio de Artízala: a fronteira entre o seu país natal e aquele onde fez a carreira de guerrilheiro, a Colômbia.

"Estive dez anos no movimento guerrilheiro das FARC [na Frente 29]. Não aceitámos o processo de paz porque o governo não está a fazer o que lhe corresponde connosco como guerrilheiros, nem com os camponeses", afirmou Artízala na entrevista à RCN. Guacho dizia estar há mais de um ano a organizar o seu grupo - que já chegará a mais de 200 pessoas - para continuar "a luta proletária". Artízala assumia-se então como "guerrilheiro ativo", mas para as autoridades, contudo, é um simples criminoso. A Frente Oliver Sinisterra foi batizada em memória do antigo cabecilha das FARC na região de Nariño (era número dois da coluna Daniel Aldana), que morreu em fevereiro de 2015.

A Frente Oliver Sinisterra foi batizada em memória do antigo cabecilha das FARC na região de Nariño

As mortes do jornalista Javier Ortega, do fotógrafo Paúl Rivas e do motorista Efraín Segarra, confirmadas pelo governo equatoriano a 13 de abril (18 dias após o sequestro), deixaram o país em choque. Enquanto decorriam as operações militares conjuntas entre Equador e Colômbia nas regiões de fronteira, à procura dos responsáveis, um casal de equatorianos era sequestrado e uma prova de vida enviada para os media colombianos. Oscar Efrén Villacís Gómez e Katty Vanesa Velasco Pinargote comunicaram a última vez com a família no dia 11 de abril, depois de terem deixado dois dias antes Santo Domingo (noroeste de Quito), tendo sido aparentemente sequestrados na zona de San Lorenzo, província de Esmeraldas.

Apesar da militarização da fronteira, nem Equador nem Colômbia tiveram sucesso em capturar Guacho. A consequência foi a demissão dos ministros do Interior e da Defesa equatorianos no final de abril, depois de ter passado o prazo de dez dias dado pelo presidente Lenín Moreno para o deterem. Quito também renunciou a acolher as negociações de paz como Exército de Libertação Nacional (ELN) e de ser garante desse diálogo que começou em fevereiro de 2017 mas tem tido altos e baixos.

Esta guerrilha colombiana negou entretanto qualquer ligação à Frente Oliver Sinisterra. "Como força revolucionária que luta pelas transformações na Colômbia, não temos nenhuma relação nem afinidade com o grupo de Guacho, nem com grupos semelhantes que estão a atuar na região de fronteira", indicaram em comunicado, destacando como estes são grupos de narcotraficantes dedicados aos negócios e não à luta revolucionária.

"O desarmamento [das FARC] significou o intensificar das disputas em algumas zonas do território colombiano entre grupos criminosos, mas a deslocação para o Equador é uma consequência não desejada, um dano colateral", disse o diretor do Centro de Recursos para a Análise de Conflitos, Jorge Restrepo, à BBC Mundo. Na sua opinião, a crise fronteiriça prende-se com o facto de a área ser onde existe um maior cultivo de coca, além de tráfico de droga. Então, a Frente Oliver Sinisterra acaba por ganhar força por ser o grupo que domina o território onde existe maior quantidade de droga.

Até o cartel de Sinaloa já pôs a cabeça de Artízala a prémio

Guacho aproveitou as redes de apoio preexistentes e o dinheiro e armas dos narcotraficantes colombianos e dos cartéis mexicanos na zona para formar o que é hoje a Frente Oliver Sinisterra: "um grupo muito forte militarmente dedicado a atividades criminosas que, apesar de tudo, reivindica os princípios fundacionais das FARC", segundo o relatório Trajetórias e dinâmicas territoriais das dissidências das FARC, da Fundação Ideias para a Paz. Mas até o cartel de Sinaloa já pôs a cabeça de Artízala a prémio.

Apesar de até agora as chamadas dissidências só terem feito ações no Equador não significa que os outros vizinhos da Colômbia não corram risco de sofrer consequências semelhantes. Para Restrepo, o que acontece agora no Equador "vai possivelmente acontecer noutras áreas limítrofes", como o Brasil, o Panamá, o Peru ou a Venezuela.

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