Gritos, apupos e delírio na convenção sem filtro da política americana

Politicon reuniu dez mil pessoas em Pasadena, Los Angeles, na primeira edição do evento da política americana após a derrota de Hillary Clinton e o início da administração Trump.

Nem o ar condicionado mais gélido do centro de convenções de Pasadena, Los Angeles, conseguiu baixar a temperatura nos ânimos dos milhares de pessoas que assistiram à Politicon neste fim de semana. Tocou-se em todas as feridas: a incapacidade de substituir o Obamacare, a derrota de Hillary Clinton, a instabilidade da administração Trump, a possibilidade de destituição por causa de obstrução na investigação às ligações com a Rússia, o muro com o México e a própria condição psicológica do presidente.

A convenção de política, que recebeu dez mil pessoas, teve uma baixa de última hora anunciada apenas horas antes do início: Anthony Scaramucci, o novo diretor de comunicações da Casa Branca, voltou com a palavra atrás e não compareceu, depois de ter confirmado múltiplas vezes que estaria em Pasadena. A escandalosa entrevista com o New York Times e a saída abrupta do chefe de gabinete Reince Priebus terão sido motivos suficientes para que Scaramucci pensasse duas vezes em ir à Politicon. E talvez com bom motivo: esta terceira edição da convenção política caracterizou-se por debates acesos, gritaria, urras e apupos, filas intermináveis para entrar nos painéis mais controversos e um ambiente geral de combatividade - que nunca saiu dos limites da discussão acirrada.

O painel mais concorrido foi a conversa entre a comediante e apresentadora de TV Chelsea Handler, apoiante de Hillary Clinton, e a mediática personalidade da direita Tomi Lahren, que tem defendido Trump. O clima entre a audiência foi crispado desde o início. Viam-se bonés com o slogan de Trump, "Make America Great Again", casacos com a palavra "Resistance" bordada em tons berrantes e pessoas a vociferarem a cada dez segundos.

"Não gritem cada vez que dizemos alguma coisa, isto não é a porcaria de um jogo de bola", atirou Chelsea, que disse querer tentar estabelecer pontos de concórdia. O objetivo foi ao ar rapidamente. "Percebo a ideia de um governo mais pequeno, mas o que é que aconteceu à decência humana, ajudar as pessoas que não podem pagar um seguro de saúde?", perguntou Chelsea Handler quando Tomi Lahren disse que um sistema de saúde universal era um erro e que ninguém deve pagar pela saúde dos outros. Aqui aconteceu o momento mais irónico do dia: Chelsea perguntou a Tomi qual era o seguro que tinha. "Como tenho 24 anos, ainda estou coberta pelo seguro dos meus pais", retorquiu a jovem, provocando um coro ensurdecedor de apupos. É que o único motivo pelo qual os filhos até aos 26 anos podem ser cobertos pelo seguro dos pais é uma provisão do Affordable Care Act, mais conhecido como Obamacare - o sistema que os republicanos, e a própria Tomi, querem abolir.

A conversa azedou ainda mais quando Tomi apoiou a decisão de banir transexuais do exército norte-americano, medida que afetará até 15 mil militares já em funções. "O exército não é um lugar para experiências sociais", declarou, apesar de frisar que não tem nada contra eles. "Só não quero ter de pagar por isso." Chelsea contra-argumentou que as despesas do exército com Viagra são muito superiores às despesas médicas com transexuais. E depois fez uma proposta: "Que tal o presidente ficar sossegado em casa durante duas semanas e usa-se esse dinheiro para cobrir as despesas?" Ao meu lado, duas apoiantes de Trump comentaram que era ridículo, "porque Trump não recebe salário". Mas Chelsea referia-se aos custos de deslocação e proteção de Trump quando viaja da Casa Branca até ao seu resort na Florida, onde gosta de jogar golfe.

Tomi, que foi despedida do site TheBlaze após ter dito que era pró-escolha no aborto, fartou-se de dizer que a sua lealdade não está com Trump, mas com a América. Chelsea perguntou-lhe se não ficava incomodada com o facto de o presidente ser apanhado a mentir, e Tomi disse não: as mentirinhas não a chateiam muito desde que ele esteja do lado da classe média. "Ele é uma criança, ataca toda a gente. Está sempre a queixar-se. Nunca vimos um queixinhas destes como presidente", lançou Chelsea.

Os ânimos exaltados na audiência deste painel voltaram a ouvir-se noutro embate muito antecipado entre a provocadora da direita Ann Coulter e Ana Kasparian, comentadora política e coprodutora do programa online The Young Turks.

No termómetro de afirmações controversas, este debate ultrapassou todos. "Não somos uma sociedade multicultural. Durante 400 anos fomos birraciais: brancos e pretos", afirmou Coulter, gerando um coro de protestos. "E os índios-americanos?! E hispânicos?" gritava-se na audiência. Coulter disparou em tudo. Criticou Trump por bombardear a Síria: "A Ivanka chorou por causa das criancinhas e pronto." Acusou-o de nepotismo por ter posto o genro Jared Kushner na Casa Branca. Disse que os agentes de fronteira não seriam apanhados a molestar mulheres imigrantes se houvesse um muro com o México. Disse que comprar um seguro de saúde devia ser como comprar sumo de laranja. "O que prejudica a classe média são os imigrantes que recebem baixos salários", acusou.

Ana Kasparian, que recebeu ovações nas respostas, retorquiu com os pontos típicos dos democratas. "É estranho os americanos de classe média pensarem que Trump está do lado deles: ele encheu o governo de milionários", disse. "Trump não é um durão. Ainda não conseguiu ter sucesso em nada."

Génio ou lunático?
A questão toca em dois extremos porque é assim que o presidente é visto pelos dois lados. Mas Clay Aiken, músico e ativista que foi candidato ao congresso pelos democratas na Virginia do Norte, recusou tanto um como o outro. "Ele é um narcisista, um entertainer maravilhoso." Aiken conhece bem Donald Trump, porque trabalhou com ele no reality show "Celebrity Apprentice." Eis uma revelação incrível: Trump não sabia quem ia despedir no programa. "Ele tinha cartões com indicações. Ficava com o crédito de despedir pessoas, mas não sabia o que tinha acontecido naquele dia. E está a conduzir o país da mesma forma", disse Aiken.

O resto do painel optou por "génio." O comediante Anthony Atamanuik, que encarna Trump em "The President"s Show", no canal Comedy Central, referiu que o presidente tem a capacidade de fazer as pessoas gostarem dele, uma qualidade enraizada na sua falta de auto-estima. "Fazer dele um lunático retiraria a responsabilidade pelas decisões que toma."

Neste debate estiveram dois apoiantes inabaláveis de Trump, Scottie Neil Hughes, comentadora política, e Robert Davi, ator conhecido por "The Goonies", "Assalto ao Arranha-Céus" e "Bond: Licença para Matar."
"Há poucos reality shows que são tão divertidos quanto as conferências de imprensa da Casa Branca", comentou Scottie. "Trump sabe que não vai conseguir concretizar os seus planos se não mantiver esse comportamento", analisou, referindo que enquanto os democratas insultarem as pessoas que votaram em Trump, não vão chegar a lado nenhum.

Robert Davi, que é também colunista no site de extrema direita Breitbart, desfez-se em elogios. "Trump é alguém que constrói coisas. É um génio", declarou, caracterizando o novo diretor de comunicações Anthony Scaramucci como "gladiador" e criticando os senadores republicanos por não terem aprovado a substituição do Obamacare.

A sombra de Watergate
As ligações entre os espiões russos e a campanha de Trump foram um dos temas mais discutidos na Politicon, com vários painéis dedicados à possível destituição. Foram desenhados paralelos com Watergate, o caso de obstrução de justiça que levou à resignação de Richard Nixon. Nesse painel esteve Roger Stone, que trabalhou na campanha de Richard Nixon, Ronald Reagan e George Bush. "No conluio com a Rússia, qual é o crime? Não há provas", afirmou. Mas Jill Wine-Banks, que foi assistente do procurador especial encarregado de investigar o caso Watergate em 1973-74, esclareceu. "Vejo tantos paralelos. Ambos incluem um ataque à comissão do partido Democrata e obstrução de justiça. É irrelevante se houve conluio", disse. "O perigoso é a obstrução."

O congressista democrata Brad Sherman, que introduziu a proposta formal de destituição, concordou. "A obstrução aplica-se mesmo quando se tenta e não se consegue." E avisou: "a questão sobre se Trump leva o mandato até ao fim está nas suas próprias mãos."

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