Governo espanhol recusa dar benefícios em troca do desarmamento da ETA

Madrid sempre recusou qualquer tipo de negociações com o grupo que considera "terrorista"

O Governo espanhol declara que "não espera nada" da cerimónia organizada pela ETA no sábado para assinalar o seu desarmamento, assegurando que a organização separatista basca "não terá nenhum benefício político" pela posição tomada unilateralmente.

O ministro porta-voz do executivo espanhol, Méndez de Vigo, sublinhou hoje, em Madrid, que a ETA deve "desarmar-se, dissolver-se, pedir perdão [pelos mortos] e ajudar a clarificar os crimes que não estão clarificados".

ETA deve desarmar-se, dissolver-se, pedir perdão [pelos mortos

Mendes de Vigo acrescentou que "o Governo espanhol estará sempre do lado das vítimas" da organização separatistas.

Madrid sempre recusou qualquer tipo de negociações com o grupo que considera "terrorista" e que em outubro de 2011 anunciou unilateralmente que renunciava à luta armada.

A ETA vai revelar no sábado os locais secretos onde ainda tem armas, numa cerimónia simbólica em Baiona, cidade francesa na fronteira com Espanha.

O desarmamento vai ser assinalado com a entrega da localização dos depósitos de armas, que a ETA afirma ainda possuir, a um Comité Internacional de Verificação.

A organização separatista basca ETA publicou hoje de madrugada um comunicado em que declara que "já é uma organização sem armas", visto que "as armas e explosivos que tinha na sua posse encontram-se nas mãos da sociedade civil".

De qualquer forma, a ETA adverte que "o processo não está completado", porque "o dia do desarmamento será amanhã" (sábado) e ainda podem ter lugar "ataques dos inimigos da paz", segundo o comunicado enviado à britânica BBC e a vários órgãos de comunicação social do País Basco espanhol.

A organização foi criada em 1959, durante a época da ditadura franquista, e renunciou à luta armada em 2011, depois de mais de 40 anos de atos de violência em nome da independência do País Basco e de Navarra, que tirou a vida a mais de 800 pessoas.

A ETA recusou até agora o seu desarmamento e a sua dissolução exigida por Madrid e Paris, exigindo o início de negociações sobre os seus membros presos (cerca de 360, dos quais 75 em França).

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Patrícia Viegas

Espanha e os fantasmas da Guerra Civil

Em 2011, fazendo a cobertura das legislativas que deram ao PP de Mariano Rajoy uma maioria absoluta histórica, notei que quando perguntava a algumas pessoas do PP o que achavam do PSOE, e vice-versa, elas respondiam, referindo-se aos outros, não como socialistas ou populares, não como de esquerda ou de direita, mas como los rojos e los franquistas. E o ressentimento com que o diziam mostrava que havia algo mais em causa do que as questões quentes da atualidade (a crise económica e financeira estava no seu auge e a explosão da bolha imobiliária teve um impacto considerável). Uma questão de gerações mais velhas, com os fantasmas da Guerra Civil espanhola ainda presente, pensei.