González pede ao PSOE que deixe passar governo minoritário do PP

Socialistas espanhóis reúnem amanhã o comité federal para decidir se viabilizam um governo PP liderado por Mariano Rajoy

Em vésperas da reunião do comité federal dos socialistas, agendada para amanhã, em Madrid, o ex-primeiro-ministro Felipe González marcou o tom da discussão: o PSOE deve recusar participar numa grande coligação, mas sem fechar a porta a um diálogo com o PP e sem ser um obstáculo à formação de um governo minoritário daquele que, afinal, foi o partido mais votado nas eleições de 26 de junho.

Num artigo de opinião ontem publicado no jornal El País, no qual começa por referir o livro Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, o político socialista, hoje com 74 anos, sublinha a urgência de se ter um novo governo em Espanha. "Como já perdemos oito meses nesta estranha situação de interinidade, também parece lógico pensar que quanto mais rápido se chegar ao fim, melhor será para todos - ou pelo menos menos custoso."

Chefe do governo espanhol no período entre 1982 e 1996, González escreve ainda naquele jornal: "O Partido Socialista tem de aceitar o diálogo que lhe oferece o candidato do Partido Popular, ainda que deixando claro que não tem intenção de participar numa coligação com o mesmo. Reitero a minha opinião negativa sobre o que chamam grande coligação, ao mesmo tempo que afirmo a responsabilidade das forças políticas: se não conseguem formar governo também não podem impedir que esse governo seja formado. O resultado do 26 de junho põe o Partido Socialista face a essa responsabilidade. Excluindo a coligação e o apoio ao PP na investidura, caso necessário, não deve ser um obstáculo a que haja um governo minoritário."

Nas legislativas de junho (em que, tal como as de dezembro, nenhum partido conseguiu chegar à maioria absoluta), o Partido Popular de Mariano Rajoy foi a formação política mais votada, chegando aos 137 deputados eleitos. O Parlamento espanhol tem 350, ao todo, sendo a maioria absoluta de 176. Em segundo lugar na votação ficou o PSOE de Pedro Sánchez, que conseguiu apenas garantir 85 lugares no Congresso dos Deputados. Apesar de ter evitado ser ultrapassado pela coligação da esquerda radical Unidos Podemos, este não foi considerado um ótimo resultado e Sánchez vê a sua liderança no partido fragilizada. Até agora, o secretário-geral dos socialistas tem optado pelo silêncio, devendo quebrá-lo amanhã. A reunião do comité federal deverá servir então para que os socialistas definam a sua estratégia quando à investidura de um novo primeiro-ministro (e respetivo governo).

Mas se Sánchez está calado, outros há que não param de falar. "Como todos os companheiros do PSOE as suas declarações são muito respeitadas e escutadas, mas já conhecem a minha posição. Manifestei-a, de forma clara, no decorrer da semana passada", declarou a presidente da Junta da Andaluzia, referindo-se à sua oposição à ideia de dar luz verde a Rajoy. Susana Díaz é vista como uma possível candidata à liderança do PSOE, caso a de Pedro Sánchez tenha de enfrentar concorrência.

De fora do partido, Mariano Rajoy disse concordar com o ex-primeiro-ministro Felipe González quando ele diz que é urgente ter um novo governo em Espanha. Questionado pelos jornalistas sobre quando se reunirá com Pedro Sánchez e com o líder do Ciudadanos, Albert Rivera, o líder do PP deu resposta um pouco vaga: "onde quiserem, quando quiserem, em público ou em privado."

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