Furacões Harvey e Irma causam danos de 242 mil milhões de euros

Enquanto a tempestade tropical avança para o interior dos Estados Unidos, o Papa Francisco voltou a chamar a atenção dos políticos céticos em relação às alterações climáticas

Perante o avanço do furacão Irma, o governador da Florida, Rick Scott, disse que "o melhor que se pode fazer é rezar". O conselho foi dado pelo republicano em entrevista ao Good Morning America, no canal ABC News, e repetido ao ponto de esclarecer em conferência de imprensa que "a oração não é um último recurso", é antes "o primeiro recurso".

Já com o Irma numa fase menos devastadora, tendo baixado de furacão de categoria 1 para tempestade tropical, o Papa Francisco preferiu uma abordagem sobre os fenómenos extremos da natureza menos dada à fé e mais à ciência. "Aqueles que negam as mudanças climáticas têm que perguntar aos cientistas. Eles são claros e precisos. Os cientistas dizem claramente o caminho a seguir. A História julgará as decisões desses políticos", disse o pontífice em declarações aos jornalistas durante a viagem de regresso ao Vaticano, após cinco dias na Colômbia. Críticas dirigidas aos líderes mundiais e, em especial, ao presidente dos Estados Unidos. No dia 1 de junho, Donald Trump anunciou a saída dos EUA do Acordo de Paris, pouco depois de ter visitado o Papa, apoiante do tratado sobre alterações climáticas.

No Pentágono, durante a cerimónia que evocou o 16.º aniversário dos ataques terroristas do 11 de Setembro, Trump dirigiu-se aos cidadãos em sofrimento: "Quando os americanos estão em perigo, as pessoas unem-se e, diante da adversidade, somos apenas um país, unido, mais forte e mais determinado do que nunca." O presidente, que se referiu ao Irma como "tempestades de efeito catastrófico", recordou que assinou a declaração de catástrofe natural e, como tal, vai "reunir os recursos do governo federal para ajudar os compatriotas" da Florida.

A crítica do Papa Francisco também serve ao governador da Florida, cristão metodista, acusado de, em 2015, ter instruído o Departamento de Proteção Ambiental daquele estado para não usarem os termos "aquecimento global" ou "alterações climáticas" - acusação que refutou na altura. Mas de Rick Scott sabe-se que é cético quanto às mudanças climáticas causadas pela atividade humana.

Dúvidas não há quanto ao rasto de destruição deixado pelo Irma, que se dirige nas próximas horas para outros estados norte-americanos. Além da Geórgia, Carolina do Sul e Carolina do Norte, Alabama, Mississípi, Tennessee, Kentucky, Illinois e Indiana vão sentir a tempestade tropical, com impactos diversos previstos: queda de árvores, falhas de energia, tornados e cheias. Ou seja, igual ao relatório dos estragos que o Irma já provocou, mas com uma intensidade mais baixa.

Enquanto na Florida decorrem as operações de busca e salvamento, bem como de restabelecimento de vias e de energia (o que poderá demorar semanas), surge outro perigo, o da criminalidade. No condado de Miami-Dade foram detidas 29 pessoas por pilhagens e assaltos.

Com o Irma ainda em plena atividade destruidora, há quem se deite a fazer contas. O presidente e fundador da AccuWeather, empresa de previsão meteorológica, Joel Myers, estima que os danos conjuntos dos furacões Harvey (que atingiu a América Central e os Estados Unidos, Texas em especial, no final de agosto) e do Irma atinjam a quantia astronómica de 290 mil milhões de dólares (242 mil milhões de euros). "A estimativa de danos do Irma será de cerca de 100 mil milhões. Isso equivale a meio ponto percentual do PIB dos EUA. E estimamos que o furacão Harvey deve ser o desastre meteorológico mais oneroso da história dos EUA, 190 mil milhões, ou um ponto percentual do PIB", anunciou. Myers explicou que os custos calculados incluem interrupções nas atividades económicas, aumento das taxas de desemprego, danos das infraestruturas, perdas de colheitas, danos materiais e aumento dos preços de combustível.

Em Cuba, as autoridades revelaram que a passagem do furacão Irma resultou na morte de dez pessoas, a maior parte em Havana. O m ais forte furacão de sempre do Oceano Atlântico provocou a subida do nível das águas em metro e meio, tendo provocado inundações e o consequente colapso de edifícios. Das 37 mortes registados nas Caraíbas, 14 ocorreram na ilha de São Martinho (dez na metade francesa, quatro na holandesa). Prevê-se que o presidente francês visite hoje Saint-Martin. Emmanuel Macron enfrenta críticas da extrema-esquerda à extrema-direita. A Frente Nacional, pela voz de Florian Philippot, acusa a liderança francesa de "abandono da população" e de falta de meios para fazer face às necessidades. Entre militares, polícias e socorristas, Paris enviou duas mil pessoas para as Caraíbas.

Ler mais

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.