França prepara-se para debate que pode acabar mais cedo

Macron já avisou que abandonará estúdio se Marine Le Pen for longe demais nos seus ataques no frente-a-frente de hoje

Nenhum pormenor está a ser descurado para o debate de hoje, o único entre os dois candidatos à presidência francesa, cujo destino será conhecido no próximo domingo. Emmanuel Macron e Marine Le Pen reduziram ontem os seus compromissos ao mínimo, de forma a pouparem-se para os cerca de dez temas que irão discutir durante duas horas e meia. Mas o candidato do En Marche! já avisou que se a sua opositora exagerar nos ataques abandonará o estúdio.

Resta saber qual será o estado de espírito com que Emmanuel Macron e Marine Le Pen chegarão hoje aos estúdios da TF1, nos arredores a norte de Paris, pois o dia de ontem não foi fácil para os dois candidatos. O grande caso do dia diz respeito a Marine Le Pen, que, no comício de segunda-feira, plagiou um discurso do ex-candidato conservador François Fillon, proferido a 15 de abril, facto que causou fortes críticas dos apoiantes do conservador.

No discurso, Fillon referia-se à geografia francesa e em particular "às suas fronteiras terrestres". "Os Pirenéus em primeiro lugar, que colocam a França nesse imenso conjunto que é o mundo hispânico e latino, a fronteira dos Alpes que vai até Itália, nossa irmã, e depois, mais além, a que vai até à Europa central, balcânica e oriental", dizia.

O então candidato de direita disse também que, se no estrangeiro se aprende francês, "às vezes pagando muito, na Argentina ou na Polónia", e que há listas de espera na Aliança Francesa de Xangai, Tóquio e México, ou no Liceu Francês de Rabat e de Roma. "Se Paris é o primeiro destino turístico a nível mundial é porque a França é algo mais, e muito mais do que uma potência industrial, agrícola e militar", continuava.

A Frente Nacional assumiu o plágio, afirmando que este foi feito de forma propositada. Segundo o vice--presidente da Frente Nacional, Florian Philippot, este episódio tratou-se de um "piscar de olhos a uma breve passagem de um discurso sobre a França" por parte de Le Pen que mostra, desta forma, que é uma candidata "unitária e não sectária".

Já Emmanuel Macron continua à frente nas sondagens, mas o fantasma dos indecisos ainda lhe poderá complicar as contas no domingo. E não serão os apoiantes de Jean-Luc Mélenchon - o ex-candidato de extrema-esquerda que ficou em quarto lugar na primeira volta com 19,58% dos votos - que lhe irão facilitar a vida. Ontem soube-se que, após uma consulta feita aos apoiantes do movimento França Insubmissa, dois terços decidiram que no domingo irão optar entre voto em branco ou a abstenção.

E é neste ponto que Emmanuel Macron e Marine Le Pen se irão defrontar hoje a partir das 21.00 locais (20.00 em Lisboa). Serão 14 as câmaras que seguirão todos os momentos do debate, moderado por dois jornalistas, num estúdio que está com a temperatura entre os 19 e os 20 graus, para evitar que transpirem. Macron sentar-se-á à direita e Le Pen à esquerda de uma mesa com 2,5 metros de largura e o pano de fundo será uma imagem esbatida do Eliseu, à semelhança dos debates presidenciais de 2007 e 2012.

Seguindo uma tradição iniciada em 1981 por François Mitterrand, não haverá imagens de um candidato enquanto o outro fala. O que impedirá de ver as reações de Macron, que, segundo uma jornalista da BMF, "estará pronto a abandonar o estúdio nos primeiros 30 minutos se perceber que servirá de saco de pancada" a Le Pen.

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