"Foi um sacrifício. O meu pai só veio para a América para eu não ir à guerra"

A história de um homem e três grandes paixões: as vacas e a produção de leite, os touros de lide e as touradas, e uma enorme coleção de chocalhos

Encontrámo-nos num restaurante em Merced, uma cidade de 80 mil habitantes em pleno vale de São Joaquim, no interior rural da Califórnia. O Branding Iron (ferrete ou ferro de marcar gado, um nome que viria a revelar-se acertado), era esse o nome do restaurante, foi uma escolha de Manuel Eduardo Vieira - o rei da batata-doce -, que nos apresentou. "Tens de conhecer o António Nunes e ir lá ver o rancho dele, é aqui perto!", tinha dito Manuel Eduardo horas antes a meio da visita à fábrica dele, entre caixas e mais caixas de batata-doce.

Como não se recusa um almoço oferecido por alguém que conhece os recantos de uma terra que visitamos pela primeira vez, lá fomos. À volta de uns bifes mal passados passámos o almoço a conversar sobre a vida dos portugueses naquele pedaço da Califórnia, os problemas da comunidade e as grandes paixões de António Nunes - as vacas leiteiras, os touros de lide, as touradas e os chocalhos. Veria mais tarde, no rancho, como leva essas paixões muito a sério.

Depois do almoço, seguimos para o rancho, a poucos quilómetros da cidade e ainda dentro do condado de Merced. Visitámos os pavilhões abertos onde as vacas, mais de duas mil cabeças, vão comendo e descansando entre ordenhas, passámos pelo pavilhão da ordenha e demos um pulo a um terreno ali perto onde António Nunes vai criando cerca de 120 cabeças de gado bravo. Regressámos ao rancho e sentámo-nos de novo à mesa num armazém ao lado da casa de António Nunes. É ali que recebe os amigos e é aquela a montra das suas paixões - paredes decoradas com cartazes de touradas, dois ou três burladeros - aquele pedaço das baias das praças de touros por onde entram, saem e procuram proteção toureiros e forcados -, bandarilhas, ferros, duas charretes e, sobretudo, milhares de chocalhos pendurados no teto.

Foi já com um lanche à frente - só o vinho e o pão eram da Califórnia, tudo o resto era português ou parecia- que António Nunes começou a contar a sua história. Chegou à América com 17 anos, em 1972, para fugir à guerra. Ele e toda a família. "O meu pai disse um dia à minha mãe: "Vamos escrever para o teu irmão, para ele fazer uma carta de chamada para a gente ir para América, por causa deste rapaz não ir para a tropa." E viemos para aqui, os meus pais, eu e mais duas irmãs, mais moças do que eu, em 1972." É por esta altura que, logo em início de conversa, a voz de António Nunes começa a tremer. "O meu pai não tinha necessidade nenhuma de vir para esta terra, tinha uma lavoura lá nos Açores, na Terceira, estava lá a ordenhar 40 vacas, amanhava-se bem, tinha empregados, mas para eu não ir para a tropa e porque a guerra estava muito complicada naquela altura, viemos para essa terra."

Com os olhos em baixo, fixos nos copos e pratos do lanche, demora-se a contar esta parte da história. "O meu pai veio com 52 anos, nunca tinha tido um patrão. O meu avô sempre teve um negócio por sua conta e o meu pai também. Nunca vi o meu pai chorar na vida, a não ser quando começou a trabalhar aqui. Pensava muito na vida que tinha lá nos Açores e tinha medo do patrão, muito medo. Foi um sacrifício muito, muito grande. Não tinha qualquer problema lá nos Açores e veio para aqui encarar uma vida totalmente diferente, por causa de mim e da guerra."

Como muitas outras histórias, o começo não foi fácil. "Viemos ordenhar vacas. Começámos pai e filho, eu com 17 anos. Isso era muito apreciado aqui na Califórnia, ter pai e filho a trabalhar juntos, porque só davam uma casa e conseguiam ter dois trabalhadores. Viemos ganhar 560 dólares por mês, em 1972."

António Nunes agarrou a oportunidade. Poupou e lançou-se num negócio próprio. O mesmo negócio de sempre: as vacas e o leite que elas dão. "Trabalhei durante dez anos para um patrão e depois comecei por conta própria, já com as minhas vacas." O início da aventura empresarial foi garantido pelo dinheiro que o casal recém-casado tinha conseguido poupar. "Tinha--me casado há dois anos e a minha mulher também tinha algum dinheiro de lado. Começámos com a poupança dos dois e um sócio. Cem vacas cada um."

Não se confunda a emoção deste início de conversa com um lamento. António Nunes tem uma vida boa e sabe disso. "Correu-me bem a vida, com a minha esposa, com as minhas filhas... e o negócio da leitaria não é bom como a gente desejava, mas é um negócio... eu fui criado nisso, nós gostamos disto e tem corrido bem." Insiste na palavra paixão para falar do que nos rodeia, ali naquele salão e, claro, das vacas. "Tenho um negócio de leitaria, que é uma coisa de que eu gosto, e tenho duas paixões que não me dão lucro, que é os touros e os chocalhos."

Antes das paixões, falámos do negócio. Curiosamente, as queixas de um produtor de leite no vale de São Joaquim, na Califórnia, são "exatamente as mesmas" das de um qualquer produtor nos Açores ou no continente. "O preço do leite está muito baixo, está como estava há 25 ou 30 anos e as coisas todas triplicaram de preço. É muito complicado. As pessoas que estão no meio do negócio [os intermediários] é que estão a fazer o dinheiro todo e nós gastamos muito. Não temos lucro que se veja."

A escala, ali na Califórnia, é completamente diferente. "Uma pessoa que tenha lá cem vacas já tem uma lavoura muito grande. Aqui, uma lavoura mesmo pequena tem mil. Há aí portugueses que têm quatro ou cinco mil vacas. É tudo diferente." E este negócio da produção de leite também está em mudança. Precisa agora de muito menos mão-de-obra. "Isto mudou tudo. Um empregado ordenhava cem vacas, hoje só com um homem é possível ordenar 500. Com as novas tecnologias, mudou muita coisa. Estou com duas mil e tal cabeças de gado e um homem sozinho, com as máquinas que tenho aqui, cuida-me das vacas todas, consegue alimentá-las todas." António Nunes tem uma exploração média para a escala dos Estados Unidos. Duas mil e tal vacas, sete trabalhadores para cuidarem do rancho e uma produção de "mais ou menos 62 mil litros de leite por dia".

A conversa, sempre à mesa - enorme com bancos corridos e com Manuel Eduardo a escutar atento numa das pontas -, foi parar à grande preocupação da comunidade portuguesa na Califórnia - o envelhecimento e a falta de vontade dos mais novos em pegar nas tradições, rituais e festas. "A emigração parou entre os anos 1975 e 1980. Dantes havia mais tradições, mais festas. Agora está tudo diferente." É "uma missão quase impossível", diz António Nunes encolhendo os ombros. "É a lei da vida, é uma coisa que vai andando e vai-se acabando. Até nos Açores já têm dificuldade em encontrar rapazes que queiram estar na organização das festas. Ninguém quer ter preocupações e trabalhos, e despesas que isto também sai muito da carteira... a malta agora está mais virada para outras coisas."

Pergunto sobre os touros e as touradas. Os olhos de António Nunes brilham. "O meu pai também tinha lá nos Açores vacas bravas e eu sempre fui criado desde pequenino à volta dos touros. E disse sempre que um dia gosta de ter touros de lide. E consegui. Comecei em 1988 e agora tenho 120 cabeças de gado bravo." É, para ele, o sonho americano. "Quando vim com os meus pais, trazíamos duas malas, mais nada, mas trouxemos isto. Uma paixão. E chegámos a uma terra que dá oportunidades. A gente trabalha e podemos ter as oportunidades todas." As touradas na Califórnia são diferentes. Não há sangue na arena, os touros não são castigados - os ferros são apenas paus de madeira com a habitual decoração e uma ponta de velcro que se agarra a um quadrado do mesmo tecido no cachaço do touro -, e só podem realizar-se como parte integrante de um qualquer evento religioso. António Nunes desvaloriza as limitações e sublinha a afición. "Temos aqui uma tradição com mais de 40 anos, temos quatro ou cinco praças onde se pode apresentar touros. Eu já trouxe aqui dos melhores toureiros e cavaleiros de Portugal. E temos touros que não temos vergonha nenhuma de os apresentar. Estamos numa terra que é contra os touros, mas temos mantido a nossa tradição portuguesa e açoriana."

E os chocalhos? Afinal, estavam literalmente sobre as nossas cabeças e dominavam a sala. A história da coleção - mais de dois mil exemplares e muito provavelmente a maior fora de Portugal - começa com "14 ou 15 que trouxe dos Açores", propriedade do avô. António Nunes confessa que o vício dá trabalho. "É uma trabalheira muito grande. Isto não é fácil, porque não é uma coisa que uma pessoa chega e compra os que quer... comecei com os chocalhos do meu avô, depois fui encontrando aqui e ali, alguns oferecidos e depois tomei uns conhecimentos em Portugal e tenho comprado uns quantos lá no continente. Compro-os lá, levo-os para os Açores e depois vêm num contentor para a América." Já tem os fornecedores identificados e uma rede montada. "Já sei as lojas de antiguidades onde aparecem chocalhos, mas está cada vez mais difícil. E depois tenho lá quatro ou cinco compradores que vão procurando, comprando e quando lá vou fazemos negócio e eu trago-os para cá." Nem quer ouvir falar de dinheiro ou de contas, não vale a pena, diz: "Se eu começar a contar o dinheiro que tenho aqui em chocalhos e disser, as pessoas vão começar a chamar-me tolo."

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